História do primeiro disco do Quarteto em Cy

Contada por Roberto Quartin, em 1964.

Capa do primeiro disco do Quarteto em Cy

 

“Esse é realmente o lançamento vocal do ano”. Assim que vi e ouvi as baianinhas, como são conhecidas entre nós, me entusiasmei e fiz questão que fizessem parte desse suplemento da Forma. Uma vez tudo arranjado, sentamos juntos, ali bem em frente ao Bottle’s, e começamos a discutir o assunto que se torna “ordem do dia” quando se trata de fazer disco- o repertório. Começamos o nosso papo, deviam ser mais ou menos, umas duas horas da manhã. Perdemos a noção do tempo e no final a nossa capacidade seletiva já estava um tanto transtornada. Só me lembro de que, quando fomos embora, Cyva reclamava ter deixado em casa seus óculos escuros, pois o sol matinal já a perturbava. Tínhamos chegado, porém, a duas conclusões importantes: a primeira era quanto ao repertório em discussão e que nos levou a escolher os números que figuram neste disco, incluindo compositores como Vinícius de Moraes, Sérgio Ricardo, Moacir Santos, para citar apenas alguns. A segunda, era de que o Quarteto deveria gravar as músicas simultaneamente com a orquestra e cantor e evitando o hábito tão usado do chamado “play-back”.         Se houve discussão quanto ao repertório, houve uma imediata conclusão quanto ao arranjador que dirigiria a orquestra. Assim que sugeri o nome do revolucionário Eumir Deodato, as meninas deram pulos de alegria. Dois dias depois, Eumir já estava quebrando a cabeça, recebendo telefonemas e visitas diárias onde ouvia, justiça seja feita, pacientemente, os costumeiros palpites do produtor- desses que fazem com que o arranjador sinta saudades do fim do mundo e arrependimento de ter nascido. Traçado o esquema dos arranjos, Eumir passou um fim de semana em Teresópolis, onde pode concluir seus trabalhos com calma.

Nas intermináveis conversas que mantive com ele, havíamos decidido que, pelo menos em quatro das músicas escolhidas, o Quarteto deveria ser acompanhado somente por um trio: piano, baixo e bateria. Havia porém uma intenção: balanço. Ora, quem pensa em balanço, pensa em Liz Carlos Vinhas. Quando fui lhe falar a respeito da gravação, ele já estava de partida para a Colômbia, onde faria uma temporada de dois meses com seu trio, o Bossa Três. Isso nos obrigou a antecipar tudo.

Gravação do disco “Quarteto em Cy”, em 1964.

No dia seguinte ao que falei com Luiz, já estávamos no estúdio. O Quarteto nunca havia sido acompanhado por Luiz Carlos, o que tornou tudo mais demorado. É, demorou, mas quando a coisa entrosou, entrosou mesmo. Gravaram “Resolução”, “Berimbau”, “Aruanda” e “Mascarada”. Em menos de uma hora e a coisa transformou-se numa audição de tal maneira excitante, de tal maneira abstraída de tudo, que gravadas as faixas, as garotas –sanduíches na mão- continuaram cantando com o trio por horas e horas.

Saímos do estúdio de madrugada e exaustos, mas lamentando que tudo tivesse acabado. As faixas com Eumir foram gravadas mais tarde e contaram com a participação de alguns dos mais destacados solistas da música brasileira moderna. O cantor e compositor Sérgio Ricardo, que foi nos visitar durante  a gravação disse:” O disco é dos melhores que já ouvi. Vou ficar satisfeito em poder escutá-las em casa. Essas meninas vão longe.”

Ele tem razão: Cybele, Cyva, Cynara e Cylene são quatro baianinhas infernais. Nascidas em Ibirataia, foram descobertas por Vinícius de Moraes. Haviam feito alguns programas de televisão na Bahia, mas foi o incentivo de Vinícius que as levou a tentar a música profissionalmente. Vieram para o Rio e começaram a aprender música com Carlos Lyra. Durante uma das aulas, Carlinhos teve uma idéia: “QUARTETO EM CY”. O nome do conjunto não poderia ser outro. Original, marcante, sofisticado. Escolheram Carlos Castilho para fazer seus arranjos vocais e com ele passaram muitos e muitos dias trancadas em seu apartamento, estudando. Foram-se meses, ficaram em ponto de bala. Resultado: fizeram uma temporada vitoriosa no “Bottel’s”, participaram de programas de televisão do gabarito de um “VIP Show”, um “Consuelo Leandro 64”, um “Noite de Gala” ou um “Espetáculos Toneleux”. Estão de partida para São Paulo, onde farão uma temporada na célebre boate “Ela, Cravo e Canela”.

Quanto ao disco? Creio que a melhor resposta será ligar a vitrola imediatamente!”

 

Fotos: arquivo pessoal do Quarteto em Cy.

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