Resistindo

Neste post publicamos três matérias sobre o antológico show “Resistindo”, de 1977, que já tivemos oportunidade de falar um pouco em post anterior. Qual foi o impacto do show na época? Quais as impressões da crítica a esse trabalho desafiador do Quarteto? É o que você vai conferir agora.

 

“Enfim, sós”

 

RESISTINDO, com o Quarteto em Cy; roteiro e textos de Aldir Blanc; direção de Luís Cláudio Ramos; cenários de Zeca; Direção de Benjamim Santos; Teatro Fonte da Saudade, Rio.

 

Quem não se lembra? Quatro suaves mocinhas, vestidas iguais na melhor tradição nacional e meio cafona dos figurinos gêmeos – no caso quadrigêmeos -, vozes afinadas, que cantavam em iníssono, como fundo para Chico Buarque, Vinícius de Moraes ou Dorival Caymmi. Vinícius as apresentava, cantando, num show da extinta boate Zum-Zum – no Rio de Janeiro: “Essas são as minhsa menininhas, são as quatro baianinhas que eu um dia descobri, Quarteto em Cy!” Depois, ao longo de shows e discos, as quatro evoluíram do uníssono para vocais bem mais elaborados, sempre seguros. Duas, Cynara e Cybele, saíram do grupo e fizeram um duo, comoventemente perfeito, de aparência indefesa e frágil ante a esmagadora vaia de 20 000 vozes, no Maracanãzinho, ao cantarem “Sabiá”, ao lado de Tom Jobim e Chico Buarque, amargurados vencedores do Festival Internacional da Canção em 1968. Cynara voltou ao Quarteto e hoje, com Cyva, é uma das duas fundadoras ainda em ação, completadas ultimamente por Soninha e Dorinha Tapajós.

Ao escolher o título do atual show, o primeiro, em doze anos, das meninas sozinhas, o letrista e agora roteirista Aldir Blanc optou por “Resistindo” porque “com todas as mudanças de tempos e marés, erros e acertos, com a maior garra – os fracos que me desculpem, mas garra é fundamental -, o quarteto resistiu.” Felizmente. Pois o show, antes de mais nada, é a clara mostra do amadurecimento, da tomada de posição existencial e estética de um grupo de artistas que sabem exatamente como, por que e o que dizer em seu trabalho.

 

Brasileiro médio – Além do roteiro musical estruturado com expressiva exatidão, a primeira parte mostra que as experimentadas vocalistas aprenderam também a falar em cena, com riqueza de inflexões e intenções raramente atingidas por outros cantores que incluem textos em seus espetáculos. A estréia de Aldir Blanc nos textos, por sinal, é das mais inspiradas que se poderiam esperar. Está ali a fórmula exata das pequenas fala de ligação entre um e outro número musical.

Sem fazer apelos ao melodramático, ao subliterário, á frase de efeito superficial muito em uso neste tipo de criação, ele chega a atingir pelo menos um momento memorável, quando dedica o show ao brasileiro médio, de que faz um retrato bem humorado e verdadeiro.

Benjamim Santos, na direção, e Zeca, na confecção do cenário, se completam para o acabamento profissionalíssimo da montagem. Em meio a luminárias e tiras do tão provinciano e brasileiro papel crepom, as quatro protagonistas se movimentam ininterruptamente, em ritmo crescente e admirável unidade. Há, exatamente, como que um núcleo de força, idéias que são destrinchadas e expostas em música, luz, movimento e fala. Dos primeiros dramas de amor do samba-canção (“Neste Mesmo Lugar”, “Vida de Bailarina”, “Bar de Noite”, por exemplo) ao repertório mais atual de Chico Buarque, João Bosco e Aldir, este núcleo vai se desenvolvendo até chegar à conclusão, sem fala nem canto, corporificada num clima quase físico estabelecido entre o Quarteto em Cy e os espectadores, de que, apesar de tudo, vale a pena criar, dizer, ir ao palco e se expor por inteiro, sem medo de errar.

“Resistindo” propõe quase um desafio, sem qualquer tom agressivo. Desafio no qual o espectador participa, na medida em que entende a beleza e a coragem simples deste show exemplar.

 

Texto: Antônio Chrysóstomo.

Publicado na Revista VEJA, em 6 de outubro de 1976.

 

 

“Quarteto em Ci: quatro vozes em busca de um novo sucesso”

 

Pela primeira vez elas vão se apresentar sozinhas em teatro. Depois de fazer coro para muitos shows de outros artistas o Quarteto em Ci vai apresentar, pela primeira vez, um espetáculo sozinho. É o Resistindo, que estréia dia 23 de setembro no teatro Fonte da Sudade.

 

Resistindo é o show que o Quarteto em Ci irá apresentar a partir do próximo dia 23, no Teatro Fonte da Saudade, sob a direção de Benjamim Santos, direção musical de Luis Cláudio Ramos, roteiro e texto de Aldir Blanc. “Esse show é importante porque será a primeira vez que nos apresentaremos sozinhas. O nome do show é Resistindo porque, apesar das diversas mudanças de componentes, o quarteto está aí, sólido e seguro de si. Esse show representa a ânsia e a vontade de mostrar a todo mundo o que aprendemos, pensamos, vimos e sofremos. Mostra a nossa resistência a tudo que passamos. Depois de tanto tempo pisando no palco sempre para acompanhar alguém, sentíamos a necessidade de fazer algo que fosse nosso. Esse show vai desde a época em que começamos até os dias atuais. Cantamos músicas de João Bosco, Sueli Costa, Alcivando Luz e poemas de Carlos Drummond de Andrade e de Castro Alves musicados por Francis Hime. Não será penas um show musical. Nos preocupamos, também, com a parte teatral.”

“Pretendemos ficar no Rio dois meses com o espetáculo e depois vamos excursionar pelo Brasil.”

O quarteto que a apouco tempo lançou seu disco Antologia (volume dois), pela gravadora Philips, sob a direção de Oscar Castro Neves e com a participação, em algumas músicas, do MPB-4 e do Tom (da dupla Tom e Dito), se prepara para uma possível viagem ao exterior. “Talvez iremos excursionar pela Espanha, França e Itália. Ainda não está nada certo, mas acreditamos que tudo ficará resolvido daqui a algum tempo. Porque, o importante é acontecermos agora, aqui no Brasil, para podermos vencer lá fora. Talvez seja essa uma das razões de montarmos esse show sozinhas. Dentro de nós sempre houve a vontade de fazermos algo que fosse inteiramente nosso. Mas que fique bem claro que esse show não significa que deixaremos de acompanhar outras pessoas. Pelo contrário, quanto mais produzirmos, melhor será.”

 

Reportagem de Stela Maris Lage.

Publicada na Revista Amiga, em setembro de 1976.

Foto: Adir Mera

 

 

“Quarteto em Cy: resistindo a todos os ventos e marés”

 

Para o Quarteto em Cy, apesar dos doze anos de profissionalismo e tarimba, a estréia de hoje, no Teatro Fonte da Saudade, é uma dupla expectativa. É que, pela primeira vez, suas integrantes estarão sozinhas no palco, sem o apoio de uma voz solista ou de outro conjunto vocal; dirão textos especialmente escritos para elas por Aldir Blanc, o letrista do momento, e não ficarão mais sentadinhas lado a lado, mas usarão as mãos, o corpo e as vozes individualmente.

 

Apesar de enfatizar a preservação da individualidade de cada uma como elemento importante na montagem do show – através, principalmente, do trabalho de laboratório feito pelo diretor Benjamim Santos para “soltar” as quatro de seu antigo esquema -, elas ainda estranham quando se pretende conhecer melhor seus gostos e hábitos pessoais. Porque nunca ninguém se interessou em saber que Cyva estudou Belas Artes, já fez um curso de teatro e gosta tanto de músicas românticas que gostaria até de cantar encostada numa janela do cenário, que tem a lua aparecendo atrás. Ou que Cynara tem dentro dela “uma coisa para explodir” e por isto prefere as músicas agressivas “que me dão a carga emocional que preciso para pôr isto para fora”. E nem disfarça sua emotividade quando enxuga os olhos molhados e pede que se publique as palavras que Aldir Blanc escreveu sobre elas, e que escutam agora pela primeira vez:

“Eu tava aqui matutando sobre a melhor maneira de falar do Quarteto em Cy e do nosso Resistindo e, de repente, não mais que de repente, me lembrei da voz do Vinícius cantando no Zum Zum: estas são as minhas menininhas, são as quatro baianinhas que eu um dia descobri, Quarteto em Cy… Então me ocorreu que o Quarteto possui uma qualidade fundamental: a duração. Com todas as mudanças de ventos e marés, com erros e acertos, com a maior garra – os fracos que me desculpem, mas garra é fundamental – o Quarteto resistiu. Os cri-cris costumam falar, com a sagrada ira dos diletantes, em concessões.

Considerem os tempos e tentem atirar a primeira pedra.

Da minha parte, sinto o maior orgulho de compartilhar com elas dessa trincheira. Estou, em todos os sentidos, em boa companhia. Hoje, nem todas são baianinhas, e é bem verdade que não são, infelizmente, descoberta minha, mas em Resistindo – não adianta chiar Vinícius – elas são as minhas menininhas.”

Os textos de Aldir – os primeiros que não são feitos para João Bosco, seu parceiro de fé – não anunciam as músicas mas a seqüência de “tempos” em que se divide o show, situando as músicas num contexto mais amplo, o da nossa realidade histórica nos últimos dez anos.

– Não são diálogos porque, afinal, nós não somos atrizes. Falamos naturalmente.

O que, para Dorinha, carioca bronzeada que “ama praia de paixão”, não chega a apresentar dificuldades. Filha e irmã de músicos, bailarina clássica, ela cantou pela primeira vez profissionalmente como integrante da Turma da Pilantragem, com a qual aprendeu a pisar num palco. E viciou, porque não parou mais, sempre integrando conjuntos. “Sou de vocal”, diz ela com seu jeito bem carioca de falar.

– Eu adoraria que o Quarteto gravasse um chorinho. E também gosto muito de modinhas: meu pai, Paulo Tapajós, era modinheiro.

No repertório de “Resistindo” não há choros, mas há poemas: Castro Alves, Cecília Meirelles e Carlos Drummond de Andrade musicados por Francis Hime, Suely Costa e Alcivando Luz, respectivamente. E muito mais, não só dos autores tradicionalmente interpretados pelo Quarteto (Chico, Vinícius, Tom, Edu, Sérgio Porto etc) como compositores da dupla João Bosco/Aldir Blanc, Paulo Cesar Pinheiro, Gil, Milton.

– Eu estudo harmonia e já estou fazendo arranjos.

É Soninha, ruiva, mãe de um menino de três anos e casada com um advogado que adora música e “ajuda a gente a resistir”, dando assistência jurídica ao Quarteto. Como faz para a Sombras, Soninha tem especial predileção por músicas “de fossa”, de “dor de cotovelo”, boleros. Mas, apesar de terem diferentes predileções musicais, elas se completam harmonicamente.

 

Publicado no Jornal “O Globo”, em 22 de setembro de 1976.

Texto: autor não identificado.

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