“Angélica”: o grito musical de Zuzu Angel, por Bia Campos

“Eu não tenho coragem, quem teve coragem foi meu filho. Eu tenho legitimidade.” (Zuzu Angel)

           

             O desaparecimento de pessoas sem a menor explicação. As grandes interrogações para quem ficava à espera de seus familiares e amigos. As dúvidas. As dores. As lágrimas. Os gritos contidos. A revolta. Essa foi a realidade que muitos viveram durante o período de ditadura militar e que, hoje, carregam as cicatrizes ou as feridas ainda abertas desses tempos.

Chico Buarque e Miltinho (do grupo MPB4) compuseram, na década de 1970, “Angélica” (gravada pelo Quarteto em Cy no LP “Querelas do Brasil”, de 1978) que conta musicalmente o sofrimento de Zuzu Angel (costureira e criadora de moda) para encontrar o corpo de seu filho, Stewart Angel Jones, que foi morto cruelmente, depois de ter passado por pesadas sessões de tortura, acusado de fazer parte de grupo estudantil contrário à ditadura: foi jogado, ainda com vida, no meio do Oceano Atlântico, por um avião da FAB a mando das forças de comando da ditadura militar. Zuzu Angel foi incansável na busca por respostas e informações a respeito de seu filho e, assim que soube da morte de Stewart, por meio de carta recebida por outro preso político, resolveu comprar a briga pela justiça de enterrar dignamente Stewart, ou Tuti, como ela carinhosamente o chamava, e acabou assinando seu próprio atestado de óbito: perdeu a vida em um acidente de carro bastante misterioso, em 14 de abril de 1976. Na época, o episódio que causou sua morte foi, como tantos outros, considerado acidente, e só na década de 1990 reconhecido como assassinato com causas políticas.

Mas, sua voz continuou reverberando e servindo de exemplo para muitas mães que viviam o drama de não terem notícia de seus filhos e estes sumirem como num passe de mágica. Mas todos sabiam que essa “mágica” tinha nomes, rostos, patentes, dedos em riste. Corações, não. No lugar deles, havia um buraco escuro, sem fundo, de onde se escutava nada mais que ecos de explosivos, de gritos alheios, de discursos sem nexo.

Zuzu Angel fez de seu trabalho com a moda sua bandeira de protesto e denúncia contra o desaparecimento de militantes políticos. A partir do momento em que se viu diante da imensidão escura de não saber onde estava seu filho, pegou agulha e linha e tentou criar o seu grito de protesto que levou a outros países, como os Estados Unidos. Em Nova York realizou um desfile em que lançou a sua moda de protesto, moda engajada, como ficou conhecida. Por meio de estampas que mostravam, por exemplo, um anjo (imagem representativa de sua marca) amordaçado e ferido, sua moda se fazia entender. Zuzu concebia sua arte como forma de comunicação, de postura diante do que estava acontecendo no mundo, de manifestação de ideias e não mero objeto de consumo de senhoras preocupadas com uma estética fútil e aparência oca.

Em 2005, Zuzu Angel saiu das páginas da História e dos acordes da canção direto para as telonas, em filme dirigido por Sergio Rezende, que tem como título o seu nome. Com grande elenco – Patrícia Pillar como Zuzu; Daniel de Oliveira como Stewart; Leandra Leal como Sônia Angel (esposa de Stewart); Regiane Alves como Hildegard Angel (irmã de Stewart) -, a luta dessa mãe e cidadã brasileira foi contada de maneira emocionante em que realidade e ficção se misturam, na tentativa de recriar uma história de vida inesquecível.

É importante que relembremos esses momentos tortos, maculados de vermelho-sangue, com cheiro de queimado e rosto desfigurado de nossa História para que de forma consciente possamos impedir que voltem a acontecer. E a arte nos impulsiona para essa reflexão necessária, profunda e transformadora: sintamos, portanto, o apelo melódico de Angélica e a Zuzu Angel recriada em película fina, mas forte. Que as Angélicas possam cantar a seus filhos, embalá-los até fazê-los dormir, aquecê-los com agasalhos feitos de amor e que não precisem mais gritar de desespero nem verter lágrimas em oceanos de dor.

Texto de Bia Campos.

Que a voz e o grito de Zuzu Angel continue ecoando por muitos e muitos anos.

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