Memórias e narrativas 3: por Leda Miriam

Seguindo a sequência de posts sobre Ibiraiata, convidamos a ibirataense Leda Miriam Pereira para dar seu depoimento sobre a cidade, como foi viver o tempo de coronelismo na região e como é a Ibirataia dos dias atuais. Memórias que se eternizam aqui no Blog do Quarteto em Cy.

 

Me chamo Leda Miriam Pereira, tenho 44 anos, fui criada em fazendas, onde a gente dormia cedo e acordava mais cedo ainda. Isso tudo nos dava tempo para ouvir as histórias do meu pai (Osmário Pereira de Souza – falecido) de quando e o quanto a “família Pereira” era importante, tinha muito cacau e influenciava em tudo na cidade. Essas histórias eram absorvidas com muito interesse de minha parte, principalmente por causa dos motivos que levavam aquelas pessoas correrem tanto atrás de dinheiro e poder, no tempo dos coronéis: quem mandava mais e quem era mais obediente. Se não fosse trágico seria até cômico a maneira pela qual eles “tratavam” as pessoas. Só existiam duas classes: as que mandavam e as que obedeciam. De lá pra cá os valores foram se invertendo de acordo com as informações que eram trazidas de “fora”. Os filhos ficaram independentes e foram torrar a herança em algum lugar na cidade grande ou até mesmo fora do país. Na década de 80/90 começou a “descida para a vida real”, acredito muito que Deus, vendo tanta injustiça, deixou que a vassoura de bruxa viesse “desempinar” o nariz de muita gente.

Hoje, muitas daquelas pessoas que estudavam na “Bahia” (Salvador) e esbanjavam o dinheiro do papai-coronel, estão sendo funcionários públicos e disputando a tapa um lugarzinho ao lado dos prefeitos que aparecem. Muitos dos coronéis que não passavam de arrogantes metidos e (descobri) muitos deles eram pedófilos, maníacos sexuais, brutos e muitos matavam por causa de pedaço de terra, as mulheres eram tratadas como escravas e se apresentavam como damas da sociedade também querendo pisar nos outros, (pobres e afins….) e hoje são apenas “seu fulano”. A juventude não se “liga” em tradição, muito menos em histórias e eles se sentem rejeitados, cansados e ignorados. Muitos se tornaram depressivos até a morte e outros, os que ficaram, tentam segurar de alguma forma o “NOME” da família… Todos pendurados num passado que nem mesmo eles acreditam, se debatendo na política em busca de notoriedade. Só que se esqueceram de desenvolver-se intelectualmente, e a tecnologia e o conhecimento em geral tomou conta de nossa gente, e eles se sentem inferiores, buscam os “doutores” de fora, mas os mesmos não dão conta, por que hoje, todos nós somos doutores de alguma forma, naquilo que nos compete. Não há mais quem manda, nem quem é mandado, existe a possibilidade de se obter o poder através do conhecimento e isso é muito difícil para quem foi criado em berço de ouro e alicerçados na ignorância.

E o que o Quarteto em Cy tem haver com isso? Nada, caíram fora antes de serem atingidas por um raio desses. Graças a Deus por isso, hoje o Quarteto em Ibirataia significa a memória importante, as filhas que deram certo, orgulho dos que as conheceram, admiração para os adolescentes. Elo entre o importante e o desconhecido, o que faz da minha cidade se tornar singular a cada geração são esses pensamentos de gratidão pelo passado, mesmo não sendo um passado tão lúdico, mas que deixou na memória de cada um de nós não a vontade de viver tudo aquilo de novo, mas o desejo de caminhar sempre em direção ao desconhecido, dando uma espiada pra trás de vez em quando.

Texto e fotos: Leda Miriam Pereira.

Mais informações sobre Ibirataia acessem: http://www.portalibirataia.com.br/

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