Sobre Geraldo Vandré

Cynara e Cybele, com Geraldo Vandré, em 1968, no Festival Internacional da Canção.

No último dia 25 de setembro de 2010, quando acabei de ver o Dossiê da GloboNews sobre o Vandré, tive uma sensação muito estranha, que foi um misto de saudade e admiração por aquele que foi, e continua sendo, o grande enigma da MPB.

Tivemos, eu e a Cybele, uma convivência rápida e muito significativa com o compositor Geraldo Vandré durante o Festival da Canção, em setembro de 1968, portanto, há 42 anos atrás.

Em pleno Maracananzinho, no “burburinho das paixões” em que nos víamos metidas, em torno da competição acirrada e justificada daquele Festival, pude observar o quanto de dignidade existia naquele homem aclamado por uma multidão, a mesma que vaiaria instantes depois a nossa Sabiá. Ele, com o violão ainda nas mãos, toda a adrenalina que o momento exigia, abraçava-nos e pedia calma e aplausos para o Chico e para o Tom, como se aquilo fosse possível diante dos quase 30.000 súditos de Caminhando (Pra não dizer que não falei das flores), o seu hino de protesto.

Era um momento bastante conturbado a era dos Festivais, que foi também a era do AI5 e da Censura total, pois estes viriam logo a seguir, em dezembro de 68, precisamente no dia 13. Estávamos em setembro, final do mês.

Pois bem, o Vandré era um sujeito quieto e, até certo ponto, “na dele”, como se diz hoje, na gíria dos novos. Ele só queria transmitir o sentimento que abalava todos nós, sentimento de revolta e perplexidade pelos ditames da ditadura estabelecida.

Ele não conseguiu o primeiro lugar, entretanto angariou a quase unanimidade pelo menos na parte nacional do Festival, que seria o degrau para, uma semana depois, tudo ser zerado e começar uma fase definitiva, a parte internacional do certame. A Sabiá vingou nas duas partes, (des)merecendo a maior vaia da história dos festivais. Estamos aqui, felizmente, para contar a história.

Voltando ao Dossiê, não consegui ver naquele homem que a GloboNews nos mostrou a fisionomia guerreira e cheia de revolta que se delineava naquele ano de 1968. Mas vi, sim, uma pessoa abatida e desiludida, porém com uma compreensão justa e bastante lúcida do que representa hoje o cenário musical no país. Ele falou, em muitos momentos, da “massificação das artes” e isso comprometeu e muito a força da nossa MPB, segundo ele.

Lembro-me de termos, eu e a Cybele, participado de alguns programas que ele apresentou, na época, se não me engano na TV Bandeirantes. Lá pudemos cantar outras canções de sua autoria, como Porta Estandarte, Disparada e até mesmo Aruanda, composição dele em parceria com Carlos Lyra, que o Quarteto em Cy lançou em 1964, no seu primeiro LP, pela Forma.

Vandré é autor de lindas canções, todas elas muito inspiradas. Uma das que eu mais gosto é a em parceria com Carlos Lyra, intitulada Quem quiser encontrar o amor, da primeira leva de suas composições.

Enfim, estou falando aqui de um ídolo do passado que saiu de cena sem deixar “sufixo”, mas teve e ainda tem um lugar extremamente importante no nosso cenário musical, senão não estaríamos aqui falando sobre ele.

Hoje eu acho que o Vandré teria de ser redescoberto, com direito a poder lançar suas novas composições que, segundo ele, serão mais ligadas à música erudita, um poema sinfônico, como ele mesmo falou. Teríamos de pagar para ver se ele tem mesmo essas novidades escondidas, prontas para serem lançadas.

A última vez em que nós, do Quarteto em Cy, estivemos com ele foi em 2001, em Teresópolis, quando fizemos o circuito dos Sescs, no Estado do Rio. Foi um momento deveras diferente e não usual. Vandré apareceu com uma câmera fotográfica querendo bater todas as fotos possíveis, nossas. Ele foi se chegando de mansinho na hora do nosso café da manhã, depois na hora do nosso almoço, enfim dando a entender que queria espaço para se comunicar. Conversamos com ele, soubemos de suas intenções sobre um poema feito em homenagem à FAB (ele nos deu um cartão onde se lia o poema Fabiana). Falou também sobre a sua mãe, que morava lá em Teresópolis e, por fim, nos enviou as fotos de cada uma de nós, tiradas por ele naquela manhã fria de Teresópolis.

Mais adiante, acho que no mês seguinte, tivemos a chance de participar da gravação do DVD do nosso padrinho Carlos Lyra, cantando Aruanda, parceria dos dois. Grande coincidência. Só que, na hora do lançamento do DVD, a gravadora Biscoito Fino não conseguiu a devida autorização para que a música fosse editada. E quem entrou em cena? A Cybele, que acabou telefonando para o Vandré e ele, com muita delicadeza, se prontificou a ir até à casa dela, em Botafogo, para conversar sobre o assunto. Dito e feito. Ele foi até lá, rubricou a autorização de Aruanda e disse, com todas as letras, que tinha feito isso por nós.

Geraldo Vandré, grande figura, um homem meio perdido nos seus sonhos, nos seus sentimentos, assim eu o defino nos dias de hoje. Um homem que nem de longe traz no rosto a marca do engajamento e da combatividade que o fez famoso, nos idos dos anos 60. Acho que a ditadura conseguiu fazer um refém para toda a vida.

Uma pena, mas a saudade e a admiração continuam….

Por: Cynara Faria

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s