Anos de chumbo – parte 1

Sônia nos conta como foi viver, sendo artista, no período de ditadura militar brasileira e de que forma a arte do Quarteto em Cy driblou as barreiras impostas nesse período.

 

 

“Quarteto em Cy e os desafios políticos”

 

Quarteto em Cy e Toquinho.

 

Vou escrever agora sobre nossa resistência nos anos 70, o que resultou no show “Resistindo” que estreou no Teatro Fonte da Saudade no RJ, com texto de Aldir Blanc e direção de Benjamim Santos.

Muitas músicas nos foram dadas por Aldir e João Bosco, que faziam parte de várias reuniões musicais na minha casa no Leblon, quando casada com o Paulinho Albuquerque, produtor. Conhecemos João Bosco quando fiz o Festival de Juiz de Fora, e Paulo e eu fomos a um jantar pós festival. Ele é de Ponte Nova e neste festival cantei a música de Lisieux Costa (irmã da compositora Sueli Costa, mineira de Juiz de Fora que já fazia sucesso no Rio, com Elis e Simone a gravando).

Todos iam às reuniões musicais aos sábados lá em casa e de lá saíram muitas músicas da dupla Bosco-Blanc. Bons tempos!… Mas em 74 e 75 já havíamos (em termos) sofrido nas temporadas que fizemos com Toquinho na Argentina. Sempre fomos muito queridas por lá e também no Uruguai com temporadas de sucesso. Quando estreamos no Teatro Astral em 75, com Toquinho, já estava bem sinistra a situação por lá e tivemos nossos instrumentos sendo revistados na entrada do teatro e nossa temporada nas províncias (Mendoza, Rosario) acabou sendo camuflada, pois pudemos observar que o clima já era de puro terror. Tanto que, logo depois, em temporada com Vinícius (nós não estávamos nesse show), nosso pianista Tenório Júnior foi sequestrado frente ao hotel que ficávamos e desapareceu para sempre. Vinícius tentou de tudo, mas nada conseguiu, porque ele mesmo em seu país não era bem visto nos meios diplomáticos, por ser músico e de oposição. Nós, que éramos presença constante, fomos banidas também e há apenas dois anos (2008) voltamos lá.

Aqui no Brasil, na mesma época, fomos proibidas de tocar nas rádios (por nossa ligação com Chico Buarque) e também por cantarmos João Bosco e Aldir Blanc (“O Ronco da cuíca” e “Rancho da goiabada” no show “Resistindo”). Quando fomos censuradas durante a temporada do show “Resistindo”, cantamos “O Ronco da cuíca” fazendo a letra da música com sons vocais e gesticulando segundo a marcação de palco do diretor Benjamim Santos. O público ia ao delírio e os censores sentados em suas cadeiras ficavam com cara de… (a escolher a pior designação).

Nos anos 60 (em 68) durante o show do “Crioulo Doido” fomos ameaçadas de invasão no Teatro Toneleros por várias vezes. O “CCC” (Comando de Caça aos Comunistas) já havia atacado o elenco de “Roda Viva” em SP e espancado Marília Pêra. Nos escreviam mensagens dizendo: “OS PRÓXIMOS SERÃO VOCÊS.” Continuamos a temporada ignorando-os até que um belo dia, Sérgio Porto passou muito mal após beber o café de sua própria garrafa térmica. Foi um episódio nebuloso, mal explicado, e ele foi substituído por Agildo Ribeiro, até retornar do repouso forçado. Rodamos todo o Brasil com este show e os CCC silenciaram após o episódio, como se dissessem: “foi uma amostra do que somos capazes.”

Recebemos, na época, a visita do ex-presidente Juscelino e da esposa Sara que compareciam a todos os shows e peças teatrais. Ele era conhecido como o “presidente Bossa-Nova”, gostava de serestas e de prestigiar os artistas. Já não era presidente e não se comprometia com a política vigente ao comparecer aos eventos musicais e teatrais, pois sempre fez isso durante a época em que foi presidente.

Para mim, os anos de censura e perseguição à classe musical, artística em geral, foram os mais criativos. Hoje, nossa geração musical, que tanto resistiu naquela época, continua no combate para preservar o que de melhor foi feito e apoiar os novos valores que surjam para continuar essa resistência. O que nos impulsiona é poder contar com os jovens como vocês que fazem questão de não deixar morrer essa resistência.

Texto: Sonia Ferreira – Petrópolis, 29 de setembro de 2010.

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