Muito prazer: MPB4

Aquiles, Magro, Miltinho e Dalmo. É isso mesmo, minha gente! O MPB4 é nosso grande convidado para esta entrevista da série “Muito prazer”. O MPB4 dispensa apresentações, então aproveitem a entrevista e divirtam-se com os “causos”, história e tudo o mais que os meninos nos contaram.

 

Aquiles, Miltinho, Dalmo e Magro: o MPB4.

 

Blog: Muito prazer em recebê-los aqui no Blog do Quarteto em Cy.

MPB4 – (Aquiles): Tenham certeza de que o prazer é todo nosso, queridas Cyva, Cybele, Cynara e Sonya.

 

Blog: Contem-nos um pouco sobre o início da carreira de vocês: como se conheceram e decidiram reunir-se para formarem um grupo vocal?

MPB4 – (Aquiles): Era o ano de 1963. Morávamos em Niterói. Foi então que Miltinho, Ruy e eu entramos para o Centro Popular de Cultura (CPC). Conhecemo-nos lá. Formamos então um trio que passou a ser o núcleo musical do CPC de Niterói. Um dia, o Magro, convidado pelo Ruy, foi a um ensaio nosso. A partir daí surgiu o Quarteto do CPC.

Quando houve o golpe militar, o CPC, que era ligado à União Fluminense dos Estudantes (UFF), foi extinto. Mantivemos o quarteto, mas já não podíamos usar o nome do CPC.

Até que, em julho de 1965, decidimos viajar em férias para São Paulo. Lá conhecemos dois Chicos, o de Assis e o Buarque. O de Assis apresentou-nos às quatro baianinhas do Quarteto e Cy. Na sequência, nós oito começamos a ensaiar um pot-pourri de sambas antigos preparado pelo Chico de Assis. E ele nos levou à presença de Nilton Travesso e Manoel Carlos, diretores do programa “O Fino da Bossa”, comandado por Elis Regina, Jair Rodrigues e Zimbo Trio. Naquela mesma noite, o Quarteto em Cy e o recém-batizado MPB4 apresentaram-se no programa, inclusive cantando junto com Elis.

 

 

Blog: Por que “MPB4”?

MPB4 – (Aquiles): Esse era um nome que Magro e Miltinho haviam dado a um quinteto instrumental que integravam na Escola Fluminense de Engenharia. Como esse grupo deixou de existir e o Quarteto do CPC precisava trocar de nome, nos valemos dessa “fórmula matemática” para renomear o quarteto. Nós suspeitamos que foi essa a primeira vez que música popular brasileira passou a ser também identificada através da sigla MPB.

 

 

MPB4 em 1966.

Blog: Como todo início de carreira, as dificuldades são grandes e desafiadoras. Que tipo de dificuldade vocês enfrentaram e o que foi determinante para conseguir vencê-las?

MPB4 – (Aquiles): Na verdade, em seu início o MPB4 só encontrou facilidades. Uma sucessão vertiginosa de fatos positivos determinou que optássemos por abandonar os estudos e viéssemos morar em São Paulo, onde nos profissionalizamos.

 

 

Blog: A formação musical de cada integrante do MPB4 é bastante diferente, não é mesmo? Contem-nos um pouco sobre isso e como a mistura dessas formações musicais individuais foi importante para o trabalho em grupo.

MPB4 – (Aquiles): O Ruy já era formado em Direito e cantava em um trio de boleros; Miltinho tocava e dava aulas de violão; Magro tocava vibrafone num conjunto de baile – dois estudavam Engenharia. Eu, secundarista, cantava no coral do meu colégio, o Centro Educacional de Niterói, bem como no coral da Igreja do meu bairro. Quatro formações distintas, mas irmanadas no gosto pela música.

 

 

Blog: MPB4 nos festivais da canção. Como foi essa época?

MPB4 – (Miltinho): Nós surgimos nos festivais da TV, em um momento de grande valorização da música popular brasileira. No 1° Festival da TV Record, em 1966, ainda desconhecidos, classificamos em 4º lugar a Canção de não cantar, de Sérgio Bittencourt. Daí para frente, participamos de vários Festivais e Bienais do Samba na TV Record, e em seguida nas séries do “Festival Internacional da Canção”, da TV Globo. Sempre nos classificando nos primeiros lugares – éramos considerados “pé- quente” pelos colegas compositores.

 

 

Blog: Chico Buarque e MPB4 cantando “Roda Viva”, em 1967, tornou-se momento antológico da música brasileira. Foi o próprio Chico que os convidou para interpretar a canção junto com ele?

MPB4 – (Miltinho): Sim. No festival anterior ele havia, junto com Disparada, de Geraldo Vandré, vencido com A banda e em seguida, na seleção das músicas para 1967, ele nos chamou para cantar com ele, com arranjo do Magro, Roda Viva.

 

Com Chico Buarque, no Festival da Canção.

 

Blog: Em que momento se deu o primeiro encontro do MPB4 com o Quarteto em Cy? Aconteceu na época dos festivais?

MPB4 – (Miltinho): Sim, o Chico de Assis nos apresentou a elas e ensaiamos algumas músicas. Numa oportunidade, quando cantamos um pupurri de sambas antológicos para Manoel Carlos e Nilton Travesso, naquela época diretores de musicais da TV Record, especificamente do programa de maior sucesso da TV – “O Fino da Bossa”, ambos adoraram e nos convidaram para cantar aquele número e finalizamos com um outro samba inédito cantando juntos, o Quarteto em Cy, MPB4, Elis Regina e Jair Rodrigues. Foi a glória!

 

 

Blog: Para vocês, como foi cantar no período de ditadura militar, em que havia uma censura muito forte à liberdade de expressão, e como é cantar hoje, em que há uma liberdade grande para se dizer o que quer? O que isso reflete no trabalho do MPB4?

MPB4 – (Miltinho): Foi difícil atravessar aquele momento negro da vida brasileira, mas pela nossa formação e pela proposta política, conseguimos superar e resistir, apresentando nossa arte com força, honestidade e sempre cantando o que a gente considerava belo e importante transmitir para o público. Em 1980, quando gravamos o LP Vira Virou, foi o momento da virada. A redemocratização dava início e a partir daí pudemos nos preocupar somente com nossa arte, diminuindo um pouco a fama de resistentes e deixando que diversas entidades representantes da nossa sociedade se manifestassem livremente, após um longo período de ditadura.

 

 

Blog: Em 2004, o MPB4 passou por uma alteração na formação do grupo que, inclusive, é considerado o grupo que mais tempo permaneceu com a mesma formação, de 1964 a 2004. O que representou esse momento de transição?

MPB4 – (Miltinho): Foi um momento difícil após tantos anos juntos. Mas conseguimos superar e o MPB4 segue com seu ofício de cantar o melhor da música brasileira.

 

 

Blog: Nestes mais de 40 anos de carreira, vocês viveram um bocado de coisas juntos. No site oficial do MPB4 existe uma sessão chamada “Causos”, em que vocês se dedicam a contar essas histórias curiosas. Queremos uma dessas histórias por aqui!

MPB4 – (Magro): Espero que gostem:

“Miguel de Cervantes Saavedra escreveu esta sábia sentença em sua obra-prima “El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha”: “Yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay!”

Pois para mim, que não acreditava em bruxa, eis que um dia ela apareceu. Melhor dizendo, uma noite…

“Já era a década de 1970. Para quem começou a voar o trecho Rio – São Paulo – Rio nos DC-3 da Real Transportes Aéreos na década de 1960, o medo de voar já ficara amortecido. Não há outra solução, ou você não tem medo de voar ou, depois de alguns voos, se conforma e conclui que não pensar no assunto é melhor do que morrer um pouco a cada decolagem ou a cada aterrissagem.

Por isso não foi nem menor nem maior o medo que senti ao entrar num táxi aéreo, um pequeno bimotor que nos levaria até Uberaba. Tínhamos um show em Uberlândia, mas, como precisávamos voltar logo após o show e o aeroporto de Uberlândia não tinha iluminação para manobras à noite, aterrissamos em Uberaba e de lá fomos de carro até Uberlândia. Éramos cinco, Chico Buarque e o MPB4.

O show correu sem problemas e assim que terminou estávamos dentro dos carros que nos levariam de volta a Uberaba, de onde retornaríamos ao Rio de Janeiro. Não me lembro de como nos acomodamos nos carros, mas tenho certeza de que Miltinho estava no mesmo carro que eu, pois foi dele que ouvi a história do Roberto “Cabeçada”.

Devagar, amigos. Antes, precisamos preparar o ambiente para depois contar a história…

Primeiro: a estrada entre Uberlândia e Uberaba é praticamente uma reta só, fato este, aliás, que fez com que Miltinho se lembrasse da história. Segundo: já era tarde da noite e só víamos a estrada pela iluminação dos faróis do carro em que estávamos. Entraram no clima? Pois então aí vai a história de Roberto “Cabeçada”:

Contou-nos Miltinho que Roberto “Cabeçada” era um amigo dele que tinha um estranho tique nervoso. Esse tique consistia em virar bruscamente a cabeça para o lado direito como se estivesse dando uma cabeçada para trás, daí seu apelido.

Depois de alguma insistência, “Cabeçada” contou a Miltinho a origem de tal transtorno.

Uma noite, dirigindo numa estrada com muitas retas, foi ficando sonolento quando, de repente, apavorado, viu surgir à frente do carro uma pessoa… Uma velhinha estava parada no meio da estrada e ele não teve reflexo suficiente para desviar dela. Desesperado, pensou na tragédia que estava vivendo, mas se arrepiou ao constatar que não tinha havido barulho nem impacto ao passar sobre a velhinha. Olhou pelo retrovisor para ver se havia um corpo na estrada e, aterrorizado, descobriu que, em vez de corpo na estrada, a velhinha estava sentada no banco traseiro do carro e, de tempos em tempos, dava-lhe fortes puxões no seu cabelo, bem na nuca. A partir dessa noite, Roberto passou a conviver com o terror de ter seu cabelo puxado pela velhinha… E tome de cabeçada.

Entre o medo e o sarcasmo, preferimos, quase sempre, o sarcasmo. E a história da velhinha serviu de tema para várias conversas engraçadas, até mesmo quando chegamos ao aeroporto e entramos no avião. Nós cinco, o piloto, o co-piloto e uma garrafa de uísque. Mal sabíamos que havia mais um passageiro a bordo. Melhor dizendo, uma passageira…

“Yo no creo em brujas…”

Todos os procedimentos para a decolagem corretos, o avião acelerou e em pouco tempo estávamos voando em direção ao Rio de Janeiro. A bordo, num ambiente descontraído, eram contadas mais histórias engraçadas sobre o caso do Roberto “Cabeçada”. Estávamos tão à vontade que o uísque ficou num banco, desprezado. O que, diga-se, não era comum acontecer.

E mais histórias da velhinha e mais risadas, quando alguém, numa piada totalmente sem graça, disse:

– Olha a velhinha aí! Ao mesmo tempo em que deu três batidinhas na janela do avião.

As batidas se confundiram com uma campainha estridente na cabine do pequeno bi-motor. Imediatamente o avião deu uma guinada para a direita. Após algum tempo o piloto conseguiu estabilizar o aparelho e iniciou uma curva acentuada, como se estivesse voltando… E estava voltando mesmo!

O co-piloto, com uma cara apavorada, pediu que trocássemos de assento, de forma que o peso maior ficasse sobre a asa esquerda, a que tinha o motor que ainda funcionava… Pois foi o que aconteceu, um motor havia parado com 20 minutos de vôo e estávamos retornando a Uberaba.

Um silêncio, só preenchido pelo ronco do único motor que nos restava, nos trazia à mente alguns problemas sérios.

O co-piloto tentava, desesperadamente, entrar em contato com a base no aeroporto de Uberaba. Seu desespero tinha uma razão crucial. As luzes do aeroporto de Uberaba só ficaram acesas até a decolagem do avião, depois disso, todos iriam dormir…

O tempo que levamos até a parada do motor, seria o dobro para retornarmos. E a garrafa de uísque começou a ser esvaziada. Quarenta minutos de ansiedade e medo. Curiosamente, apesar de se perceber facilmente a velocidade de esvaziamento da garrafa, todos continuavam sóbrios, como se estivessem bebendo água.

Aos 40 minutos de voo, com apenas um motor nos mantendo no ar, uma notícia boa: o aeroporto estava iluminado nos esperando!

E, no que parecera a nós umas vinte horas, finalmente tocamos, meio desequilibrados, a pista do bendito aeroporto de Uberaba.

A garrafa de uísque havia sido devidamente esvaziada até que o avião parou em frente ao saguão do aeroporto e o piloto desligou o nosso heróico motor.

Inacreditavelmente sóbrios, levantamos, descemos as escadas do avião e ao pisar o solo… Estávamos todos completamente bêbados!

E ninguém mais, bêbado ou não, sequer ousou tocar no nome da nossa passageira. Nunca mais! Mesmo porque, no dia seguinte voltaríamos para o Rio naquele mesmo avião. Eu, hein!”

DVD “MPB4 ao vivo – 40 anos”.

 

 

Blog: O DVD “MPB40 anos – Ao vivo” é uma comemoração às quatro décadas de carreira do grupo e vocês contaram com participações especialíssimas: Cauby Peixoto, Milton Nascimento, Roberta Sá, Zeca Pagodinho, Chico Buarque e Quarteto em Cy. Falem um pouco sobre essa experiência de gravação do DVD e já pensam em gravar o segundo?

MPB4 – (Magro): Esse DVD, muito significativo para nós por ser o primeiro do MPB4, levou praticamente 2 anos para ser gravado. Uma série de percalços, principalmente a dificuldade de encontrar uma gravadora que patrocinasse o projeto, fizeram com que nossa comemoração dos 40 anos ficasse defasada da sua verdadeira data. Por outro lado, os vários adiamentos acabaram por nos deixar muito seguros nas músicas que compuseram o repertório. Ficamos então muito à vontade para curtir nossos convidados e a plateia. E quem não sentiria prazer em cantar com amigos como esses?

A experiência da gravação do primeiro DVD me ensinou que três fatores definirão a gravação do próximo: persistência, paciência e muito ensaio. O resto vem pelo acaso e pelo tempo.

 

 

LP “Cobra de vidro”, MPB4 e Quarteto em Cy.

Blog: Vamos falar um pouco, agora, do trabalho do MPB4 com o Quarteto em Cy. Como surgiu a ideia do primeiro disco dos dois grupos juntos, o Cobra de Vidro, de 1978?

MPB4 – (Magro): Depois do primeiro show dos oito (Quarteto em Cy e MPB4) na boate Le Club, em São Paulo, ficou evidente que em algum momento da vida dos dois quartetos isso aconteceria. E aconteceu num período dourado para nós. Cobra de Vidro realizou um sonho que já durava 10 anos e foi o nascer de um novo grupo vocal que eu chamo carinhosamente de Octeto.

 

 

Blog: E de lá pra cá, vocês não pararam mais de trabalhar juntos. E vieram os discos Flicts (1980), Bate-Boca (1997), Somos todos iguais (1998), Vinícius – A arte do encontro (2000). Qual destes vocês destacariam como mais especial e por quê?

MPB4 – (Magro): Todos maravilhosos, mas Flicts em particular. Já gostava do disco, mas eu me emocionei com o texto que Drummond dedicou a ele.

 

 

Blog: Falta agora um trabalho dos dois grupos, com a nova formação do MPB4. Existem planos para mais esse trabalho?

MPB4 – (Magro): Das coisas boas da vida a gente não enjoa! Só falta a oportunidade se apresentar. Eu tenho uma ideia…

   (Dalmo): Bem, por enquanto somente os shows em conjunto, o que já nos dá muito prazer. As agendas dos dois grupos são atribuladas, mas se alguém levantar alguma ideia, e boas ideias de projetos envolvendo o Quarteto em Cy e o MPB4 não faltam, poderemos pensar e colocar em prática algumas delas. Com a palavra os patrocinadores.

 

 

Blog: É notável a harmonia de vozes entre o MPB4 e o Quarteto em Cy. Qual é a sensação de cantarem juntos?

MPB4 e Quarteto em Cy na época do show “Viníciues – A arte do encontro”, 2000.

MPB4 – (Dalmo): Eu, Dalmo, tive a oportunidade de colocar no Blog do Quarteto em Cy exatamente o que senti quando subi num palco com elas pela primeira vez. Foi emocionante, pois sempre tive muito interesse pelo trabalho do Quarteto em Cy, desde os anos 70, quando comecei a ouvir um pouco de Bossa Nova e boa MPB. Daí meu interesse por grupos vocais ter nascido justamente nessa época. Hoje, no MPB4, orgulho-me muito do trabalho, pois formamos o que há de melhor na música popular brasileira quando se fala de grupos vocais.

 

 

Blog: Se vocês pudessem reviver um momento musical com o Quarteto em Cy, qual seria e por quê?

MPB4 – (Dalmo): Acho que o trabalho A arte do encontro, com músicas de Vinicius de Moraes, em que tive a oportunidade de atuar, pelo menos umas 3 vezes, e trouxe-me muitas alegrias. É maravilhoso estar com elas no palco, e cantando a obra de Vinicius de Moraes então é muito bom.

 

 

Blog: Neste momento, o espaço é de vocês para dizerem o que quiserem ao Quarteto em Cy.

MPB4 – (Dalmo): Minhas queridas amigas cantoras, grandes cantoras, Cybele, Cyva, Cynara e Soninha, espero estar em algum palco deste nosso Brasil com vocês logo. Lanço aqui a campanha, MPB4 e Quarteto em Cy na estrada… Atenção, contratantes…

Contatos para show: Mil Tons Produções Artísticas – Milton Santos Filho
Tel.: (21) 2540.5741 Tel/Fax.: (21) 2259.5512

Site oficial MPB4: http://www.mpb4.com.br

(todas as fotos deste post foram retiradas do site oficial do MPB4)

Vamos relembrar uma apresentação dos dois grupos para a versão televisiva de “O Grande Circo Místico”, de Chico Buarque e Edu Lobo. O Quarteto em Cy e o MPB4 interpretam “Opereta do casamento”.

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