Tempos de escola, por Cyva Leite

Quem não se lembra com carinho do seus tempos de escola? E como é gostoso relembrar e dividir esses momentos com os amigos.  Em 2006, Cyva me contou sobre o seu tempo de escola, as lembranças dessa época e como as artes sempre estiveram presentes em sua vida. Com sua autorização, publico neste post alguns trechos da carta em que ela conta as suas memórias de uma forma muito especial.

 

“Minha querida Bia,

Fachada do ICEIA, na Bahia.

 

            Comprei este caderninho para escrever algumas coisas sobre o meu colégio para você.

            É evidente que não vou preenchê-lo totalmente, mas achei mais prático, por poder carregá-lo para qualquer lugar e ir anotando […]

            Mas vamos ao colégio, tá?

            São três andares, no Barbalho, bairro de Salvador. Ainda existe o prédio, claro. Fui lá há uns 4 anos e fiquei triste porque, de tudo o que me lembrava só ficou a construção, ainda assim muitíssimo maltratada.

            Soube que funciona ainda. Hoje, é o “Colégio/Instituto Estadual Isaías Alves” – com sigla ICEIA. Havia piscina olímpica, quadra de tênis e de ginástica, com arquibancada, consultório médico e dentário, com atendimento excelente, sala dos professores, cantina e muitas salas de aula, no térreo. Ah! Um “Jardim de Infância” funcionava no térreo também, além de uma escola primária, que se chamava Escola Getúlio Vargas, onde as professorandas faziam estágio. Esqueci de dizer que, no meu tempo (anos 50), o colégio se chamava “Instituto Normal da Bahia”, com a sigla INB e, evidente, era um colégio público que formava professoras. No meu último ano colegial (naquele tempo – colegial era “Clássico” e “Científico”), tive que ser transferida para outro colégio, o “Colégio da Bahia”, mas este só freqüentei um ano.

            Tanto minhas irmãs como eu, todas nós, estudamos no INB, sendo que a Cybele “se formou” em professora primária lá. Como você vê, o Colégio era enorme. Ocupava todo um quarteirão da rua. Esqueci também de falar do Teatro, super bem aparelhado – palco excelente, camarins ótimos, banheiros, etc., onde os artistas de fora da Bahia se apresentavam. Para você ter uma ideia, lá eu vi Caymmi cantando, Dóris Monteiro e também o Roberto Mayer, com a peça “As mãos de Eurídice”, de Pedro Bloch, além de bailarinos espanhóis e outros artistas estrangeiros. […]

            O colégio era misto e as alunas usavam uniforme azul e branco. Os alunos, cáqui. Eu me lembro que a minha saia era pregueada e, para não desfazer as pregas, eu a colocava embaixo do colchão. […] Havia uniforme de ginástica também. Aí, o sapato mudava para o tênis, mas não esse de agora. Era de lona, branco, que a gente limpava com uma pasta de alvaiade com água para ficar sempre impecável.

            No Teatro também havia apresentações de Canto Orfeônico, pois tínhamos aula de canto, e eu fiquei muito vaidosa quando a professora me chamou para cantar no coro do 3º ano – eu era ainda do 2º (ginasial). Cantávamos Villa-Lobos e hinos, por isso até hoje eu sei as letras de vários: “Nacional”, claro, “Hino à Bandeira”, à “Independência”, à “República” – “liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”, que eu achava (e acho) o mais bonito. […]

Instituto Normal da Bahia, atual ICEIA.

   Sempre não gostei da Matemática e todo ano passava “raspando”, como se dizia no meu tempo, mas nunca fiquei de 2ª época, o que era terrível, pois os alunos que ficavam de 2ª época precisavam voltar ao colégio em fevereiro para serem submetidos a 2º exame. Quando não passavam, recebiam a “pecha” de “repetentes”, o que era sinônimo de mau aluno. Só se podia ficar de 2ª época de duas matérias. De três, perdia o ano. A gente dizia “tomou pau”. Acho que Cybele e Cynara ficaram de 2ª época uma vez, Cylene nunca. Eu também, graças a Deus.

            No Teatro também aconteciam as peças da “Hora da Criança”, que frequentávamos: “Narizinho”, “Monetinho”, “Enquanto nós cantarmos…”, foram algumas delas. (Em tempo: o prof. Adroaldo Ribeiro Costa, que fundou e dirigia a “Hora da Criança”, era professor de História no INB). […]

            A disciplina estava sempre presente na sala de aula, mas havia alguns que “pescavam” (colavam), em dia de prova: escreviam a “pesca”, ou olhavam a prova do colega ao lado ou na frente. […] No final de cada mês, as notas eram escritas na caderneta ou “carteira” como a gente chamava um livrinho que tinha fotos, dados de identidade e que tínhamos que levar todos os dias. Funcionava como passaporte para as aulas.

            Depois do horário marcado para o começo das aulas, o grande portão de entrada era fechado e ninguém mais entrava. Mas às vezes um ou outro se atrasava para a primeira aula e tinha que driblar a censora geral que a turma chamava de “Rodinha” e era muito rigorosa. […] Nesse tempo também, havia uns alto-falantes que tocavam boleros e eu me lembro das minhas colegas dançando umas com as outras nos corredores, pois o colégio era misto, mas as meninas estudavam pela manhã e os meninos à tarde. Só durante o colegial tive meninos na sala. Havia, portanto, uma separação, segundo me lembro. […]

Teatro do Instituto Normal da Bahia.

Sabia que, depois de concluir o 2º grau, no 1º ano de faculdade, eu escrevi um livro sobre o convívio de quatro amigas e eu no INB, nossos sonhos e planos para o futuro, professores, aulas etc., de tanto que gostava do nosso colégio. Acho que quis reviver aquele tempo e é o que estou fazendo agora, com a oportunidade que você me deu.

            Quase em frente à sala dos professores, havia um caramanchão e um laguinho com uma tartaruga. Minhas amigas e eu sentávamos à borda do laguinho para conversar e planejar a vida. A maioria frequentava também a “Hora da Criança” e, praticamente o dia todo vivíamos no colégio, pois os ensaios das peças eram em salas do próprio, as quais foram cedidas ao prof. Adroaldo para que ele ensaiasse, não só as peças de teatro, mas também os programas de rádio que iam ao ar aos domingos, às 10 horas, na Rádio Sociedade da Bahia. Com essa informação, você pode imaginar o que o colégio representou para mim e minhas irmãs que vivíamos longe dos nossos pais, pois morávamos com uma tia da mamãe, no sótão do casarão dela, na Lapinha. Antes, ela morava no Barbalho, pertinho do colégio e tínhamos um quarto para as quatro lá. Depois, ela se mudou para a Lapinha, bairro também próximo do INB e nos cedeu o sótão.

[…]

 

            Bem, estou indo ao Correio agora. Vamos ver o que acontece.

            Um beijo para você […] com o meu carinho de amiga-avó,

 

                                                    Cyva”

Fotos do antigo Instituto Normal da Bahia, atual ICEIA: http://arquitetandonanet.blogspot.com.br

Fotos do ICEIA: http://www.jfparanagua.com.br

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