Carta aberta ao Quarteto em Cy, por Aquiles Reis

O Blog do Quarteto em Cy está em contagem regressiva para as comemorações dos 47 anos do grupo no dia 30 deste mês. Mas como o clima por aqui é sempre de muita festa e alegria em Cy, publicamos a carta aberta que o Aquiles, do MPB4, escreveu às meninas em 2004 expressando todo o seu carinho por essas amigas e companheiras de estrada musical.

 

MPB4, Quarteto em Cy e Célia Vaz, em 1995.

 

Queridas Cyva, Cynara, Cybele e Sonya, bom dia. Para começo de conversa, gostaria que lessem esta carta certas do carinho que sinto por vocês.

Escrevo para mandar notícias, para matar saudade e para estar perto. Saibam vocês que os últimos anos foram difíceis. Dificuldades sempre existirão, sabemos. Só que num determinado momento, crises antes contornáveis tornam-se maiores que nós. Confesso que estou assustado, precisando entender melhor o que sinto. Tento ser em tudo que faço o mais sincero e coerente possível. Conhecendo minhas limitações, enormes, sei o quanto é precária essa tentativa. Mas insisto. Tenho medo do irreversível. Pavor do desconhecido. Estou meio confuso hoje, né? Mesmo assim, escrevo.

Lembro do dia (faz tempo!) em que fomos ao cinema. Que filme? Não tinha a menor importância o filme. Eu estava ao lado da Cylene, que depois casou e mudou para Araraquara, interior de São Paulo. Mas lembro que foi emocionante. Lembro que Ruy e Cynara levaram a sério e casaram e tiveram o João, a Irene e o Francisco. Lembro quando vocês foram para os Estados Unidos. Quanta coragem! Cyva casada com o Aloísio de Oliveira, em Los Angeles. Lembro das separações. As trocas de integrantes, tantas. Lembro da Cynara e da Cybele, no Maracanãzinho, cantando “Sabiá” sob vaia juntas com Tom e Chico. Lembro da Cynara cantando sozinha e gravando o disco Pronta Pra Consumo. Lembro dos recomeços, tantos. Lembro da parceria que fiz com Ruy e Cynara. Juntos compusemos “Mar da Tranqüilidade”, classificada no festival de música de Juiz de Fora (MG). Lembro de shows que me emocionaram. Resistindo, direção de Benjamim Santos, talvez tenha sido o principal, lá no Teatro Fonte da Saudade, Rio de Janeiro.

Faz tanto tempo, lembram? Vinte, trinta, quarenta anos se foram, consumidos na luta pela sobrevivência, na busca da dignidade. Lembram do Teatro Carlos Gomes? Reformamos tudo. Só para fazer o show Cobra de Vidro. Temos do que nos orgulhar. Temos uma história para nos sustentar.

Reencontramo-nos e nos desencontramos recentemente, depois de nos perder anos a fio. Devo confessar que foi melhor o reencontro do que o desencontro. Posso compreendê-las melhor agora. Cada uma de vocês, somente depois de tanto tempo, consigo avaliar integralmente. Torço por vocês, amorosamente, para sempre. Se custo a entender alguns porquês, tenho na Cyva alguma força. Se temo alguma coisa, tenho na Cynara alguma resposta. Se preciso de algo, tenho na Cybele algum caminho. Se me falta alguma coisa, tenho na Sonya algum alento. Se me falta o canto, tenho o Quarteto em Cy que me (en) canta.

E então me pergunto: depois das lembranças o que virá? Virá o dia da serenidade? Ou virá o tempo da saudade? Não faço idéia, apenas vivo. Olho para trás e vejo como mudamos. Estamos mais velhos, sem dúvida. Temos olhos cansados de tanto ver o que algumas vezes preferimos nunca ter visto. Cantamos tantas canções que acreditamos que jamais conseguiremos parar de cantar. O canto parece, para quem sempre viveu dele, eterno. Todo artista precisa ser onipotente para criar, precisa ser louco o suficiente para crer que foi eleito para levar alegria e beleza para seus semelhantes. O canto em conjunto é a maior prova da possibilidade de exercício da democracia. Ouvir e ser ouvido. Acatar e ser acatado. Abrir mão de opiniões em favor de um objetivo maior, essa é a busca incessante do nosso dia a dia.

Tenho saudades de vocês, continuo pensando em vocês, hoje mais do que nunca com carinho e admiração. Espero vê-las em breve, cantando. Sendo a voz da(o) MPB. Quatro beijos daquele que muito lhes quer bem. Aquiles.

REIS, AQUILES RIQUE. In: Gogó de Aquiles. Ed.: A Girafa. 2004.

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