Muito prazer: Cilene Chakur

Irmã mais nova de Cyva, Cybele e Cynara, Cilene fez parte da primeira formação do Quarteto em Cy e colecionou muitas histórias ao lado das irmãs no começo da carreira do Quarteto. Ela vem nos contar como foi cantar com as irmãs na primeira formação do grupo, que caminhos sua vida seguiu depois de sua saída do grupo e muito mais. Leitura indispensável!

 

Cyva, Cynara, Cilene e Cybele.

 

Blog: Cilene, seja bem-vinda ao Blog do Quarteto em Cy. É um grande prazer tê-la aqui conosco.

Cilene: O prazer é meu de ver esse seu trabalho. Agradeço o convite.

 

 

Blog: Irmã mais nova desse Quarteto em Cy, que lembranças você guarda da música em sua vida antes de integrar o grupo vocal ao lado de suas irmãs?

Cilene: Já faz um tempinho, né (rsrsrs)? Mas a música sempre me acompanhou, desde a minha infância. Minha mãe gostava de cantar e eu gostava de escutá-la. E, ainda pequena, eu costumava participar de peças e apresentações musicais idealizadas e dirigidas por Dona Dilce Ferreira Telles, a grande incentivadora dos talentos da cidade onde eu morava, no interior da Bahia. Atuei, também, já em Salvador, em peças de teatro e no programa de rádio ligados à “Hora da Criança”, uma associação sem fins lucrativos, dirigida por Adroaldo Ribeiro Costa. E, enfim, meus 13-14 anos me encontraram cantando em dupla com Cynara na TV Itapoã de Salvador, após termos conseguido o 1º lugar num programa de calouros. O duro era ensaiar até a madrugada…

 

 

Blog: Como foi para você, tão jovem, sair da Bahia para ir morar no Rio de Janeiro, na década de 1960? Que histórias você guarda desse tempo?

Cilene: Minhahistória com o Rio é de encantamento. Mas nem sempre foram de encantamento minhas histórias no Rio.

Foi difícil encontrar vagas em colégios quando chegamos. Eu tinha feito o 1º Colegial em Salvador e queria continuar a estudar. Cynara e eu fomos estudar à noite em um colégio na Lapa e, com a grana curta, tínhamos que atravessar a pé uma distância longa para casa. Isso depois de um dia de trabalho (eu era recepcionista em uma firma de representações). E, em 1º de abril de 1964, tive a ingrata surpresa de ver a sala onde eu trabalhava invadida por um bando munido de metralhadoras procurando “aparelhos”. E eu nem sabia o que era aquilo, nem o que tinha acontecido! Mas, depois, com o Quarteto atuando, deu pra aguentar a “época negra” da história do nosso país.

 

 

Quarteto em Cy, Vinícius de Moraes, Dorival Caymmi e Aloysio de Oliveira, na boate Zum Zum, em 1964.

Blog: Uma vez no Rio, vocês começaram a cantar em festinhas e reuniões em casa de Vinícius de Moraes e amigos, o que acabou divulgando o talento das quatro irmãs para a música. Quando você percebeu que o Quarteto em Cy, como grupo vocal, tinha, de fato, se formado?

Cilene: Tivemos uma boa experiência no Bottle’s Bar e o primeiro LP serviu para dizer “Vão em frente!”. Mas acho que foi o show do Zum Zum que me deu a certeza de que o Quarteto valia à pena e tinha futuro. Tínhamos uma ótima direção e companheiros de peso, maravilhosos.

 

 

 

Blog: E como foi esse comecinho de Quarteto em Cy? Que sensações vocês experimentaram nesse período?

Cilene: Na época eu era um pouco desligada, talvez infantil até. Nos intervalos de shows, ficava lendo gibis; e se era uma boate, às vezes ficava trancada no banheiro com as minhas leituras, esperando que o juiz de menores fosse embora, pois ainda não tinha 18 anos. Mas eu achava lindo ouvir as quatro vozes nos ensaios com Carlinhos Castilho e, mais tarde, com o grande Luiz Eça. Ensaiar cada voz e, depois, juntar todas, parecia mágica. Não era, simplesmente, a soma de quatro vozes, mas uma integração que me encantava. E o repertório era fantástico! Penso que minhas irmãs diriam o mesmo…

 

 

 

Blog: Que momento foi inesquecível para você em sua participação no Quarteto em Cy? Por quê?

Cilene: O show no Zum Zum é inesquecível. Era maravilhoso estar perto de dois gigantes da música brasileira – Caymmi e Vinicius. Juntando, então, Oscar Castro Neves e banda, era perfeito! Os papos de Vinicius com Caymmi a certa hora do show eram de babar! Outro momento que não esqueço foi a participação de Quarteto no espetáculo teatral “Liberdade, liberdade”, em que fomos companheiras de Oduvaldo Vianna Filho (o Vianinha), Paulo Autran, Tereza Raquel e Odete Lara.

 

 

 

Blog: Em 1966, você saiu do Quarteto para seguir a carreira de professora, a que se dedica até hoje. Como foi essa transição?

Cilene: Ainda no Quarteto, quando fizemos uma temporada em São Paulo, eu aproveitava as folgas do show e ia para o Rio fazer provas, pôr em dia as tarefas do colegial, que não havia abandonado. Como sempre gostei de estudar, de ler e escrever, essa transição foi suave.

 

 

 

Com os filhos Gabriela, Paloma, Andréia e Pablo.

Blog: Que rumos a sua vida seguiu após sua saída do Quarteto em Cy?

Cilene: Acompanhei meu marido de mudança para Araraquara, interior de São Paulo, e me dediquei aos estudos e ao papel de mãe. Fiz Pedagogia, depois Mestrado em Educação, Doutorado, Pós-Doutorado e Livre-Docência em Psicologia da Educação. Sempre estudando, pesquisando, dando aulas, fui sempre feliz na minha carreira. E tive quatro filhos para coroar minha vida.

 

 

Blog: Neste mês de junho, o Quarteto em Cy comemora 47 anos

de vida, sendo a maior referência em conjunto vocal feminino do Brasil, com grande repercussão no exterior também. Os sonhos das quatro irmãs, lá em 1964, chegavam tão alto?

Cilene: Penso que Cyva era a que tinha mais fé na continuidade e sucesso do Quarteto. Mas as quatro eram muito empenhadas em dar certo a nova formação, pois não tínhamos tentado antes cantar juntas só as quatro e, muito menos, em quatro vozes diferentes.

 

 

Blog: Sendo educadora e pesquisadora na área de educação, o que você pensa sobre o uso da música em sala de aula como suporte para construção de conhecimento?

Cilene: Você pode usar a música em qualquer matéria escolar. Eu mesma já usei em minhas aulas. Os alunos amam, qualquer que seja a idade. A música pode, sim, ser um apoio nas aulas, pois é um grande fator motivador, que desperta ou aumenta o interesse dos alunos. Mas é preciso saber usar e saber dosar, pra não virar oba-oba, não é?

 

 

Cilene e Cyva em Marrocos.

Blog: Você acredita na transformação das pessoas por meio da música? Se sim, de que forma, em sua opinião, isso acontece?

Cilene: Não sei, nunca pensei nisso. Mas acho que uma atividade realizada com garra e seriedade e que traga benefícios para o coletivo só pode ser transformadora. O problema, por exemplo, é quando a música se confunde com um espetáculo de efeitos visuais ou leva alguém a endeusar o próprio ego.

 

 

Blog: O espaço agora é todo seu para deixar um recado de Ci para Cys.

Cilene: Cys e Soninha queridas, continuo Cy do lado de cá, como fã incondicional. Que ainda haja muitos cantos e encantos no caminho do Quarteto. Beijos.

 

 

Cilene em outras palavras

 

Cilene e Cyva na Grécia.

 

Na memória: minha infância feliz. Meus filhos e netos.

 

Em Cy: boa música e harmonia.

 

Canção para vida toda: “Pedro pedreiro”, de Chico Buarque e “Além do amor”, de Baden Powell e Vinicius de Moraes.

 

No Egito.

Cilene ontem, hoje, amanhã: Recorro ao grande educador Paulo Freire: Gosto de ser gente porque, inacabado, sei que sou um ser condicionado, mas, consciente do inacabamento, sei que posso ir mais além dele. Esta é a diferença profunda entre o ser condicionado e o ser determinado.

 

Tempo livre: Viajar (minha paixão), escrever contos infantis e curtir os netos não têm preço.

 

Meu lema: Se o efêmero domina o mundo, é preciso aproveitar o que ainda existe de duradouro.

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