Memórias e Narrativas 8: “Amizade de infância”, por D. Dylce Teles

Conversamos com D. Dylce Teles, que viveu em Ibirataia, interior da Bahia (hoje reside em Salvador), e conviveu com as Cys antes de formarem um quarteto musical. Ela resgata suas memórias desse tempo, nos transporta para um outra época em que as festas de rua coloriam as cidades, as pessoas se reuniam para uma boa conversa e a vida tinha outro sabor. Através da narrativa de D. Dylce vamos conhecer, sob seu ponto de vista, o nascimento do Quarteto em Cy. Fazemos um agradecimento especial a Joilce Teles, filha de D. Dylce, quem tornou possível essa nossa prosa.

 

 

Cyva, Joilce e a boneca Lúria.

Quando cheguei recém-casada, em 1951, em Ibirataia (antiga Tesouras), o progresso achava-se abalado devido à política existente entre os partidos: UDN e PSD. Apesar de ser muito bem recebida, pude perceber a rivalidade entre as famílias seguidoras destes partidos chegando ao extremo de transferirem-se para outros lugares. Entre as famílias ausentes encontrava-se a de Sr. Eurico Leite, cidadão de posição sócio política elevada, casado com D. Iazinha e tinham quatro filhas. Por muito tempo, ficaram afastados de Ibirataia… Um dia, “A voz da Cidade” anunciava com entusiasmo que retornaria à Ibirataia o correligionário Eurico Leite. Meses depois, aconteceu o retorno da família. Meu esposo (José Teles) tinha bom relacionamento com ele e logo houve a minha aproximação com D. Iazinha e suas garotas. Coincidentemente ficamos quase vizinhas.

Minha casa era sempre visitada pelas jovens do local que iam fazer-me companhia (meus familiares residiam em outra cidade do interior baiano). Eu notava que a hostilidade política ainda permanecia no grupo. Tive a idéia de acabar com aquela desarmonia: comecei a organizar com a turma, dinâmicas de grupo, brincadeiras de salão, amigo secreto, passeios, bailes etc. A paz reinou… Adeus rivalidade!

A igrejinha do local estava em fase de acabamento, necessitando de ajuda financeira. Como era período de férias, resolvi criar um grupo de teatro com o objetivo de angariar subsídios para o andamento da obra. Nesta época eu estava esperando bebê, mesmo assim continuei com meu ideal. Fiz o projeto do espetáculo, escolhi a peça: Formação da Raça Brasileira e convidei adolescentes para fazerem um teste. Dentre eles, estavam as filhas de D. Iazinha que preferiram participar do ato variado. Disseram-me: “Queremos cantar!” E logo no teste cantaram lindo! Adorei! Abri o espetáculo, com o dueto das irmãs Leite cantando: Cyva (13) e Cybele (12). O Festival foi uma maravilha. Muito aplaudido!

Chegou o mês de outubro. No dia 13, nasceu o meu rebento: menina! Recebeu o nome de Joilce Tereza. A alegria foi imensa! As menininhas Cinara e Cilene, quando chegavam da escola iam direto visitar e carregar um pouco o bebê. Em dezembro, Cyva e Cybele chegaram de férias multiplicando os cuidados e carinhos pela nossa “Jóia” e solidificando ainda mais a nossa amizade.

O tempo foi passando…

Carta de Cynara, para as irmãs Cyva e Cybele que estavam em Salvador. 1952.

Um dia, Sr. Eurico teve necessidade de vir a Salvador. Nesta ocasião encontrava-se em Ibirataia o grande Circo Nerino e as meninas insistiram muito com D. Iazinha para levá-las ao espetáculo. Diante da insistência, resolveu satisfazê-las, confiando ao casal amigo (Teles e Dylce), a companhia das meninas.  Ao voltarmos, soubemos que a Rádio Sociedade da Bahia, estava convocando em Ibirataia familiares de Sr. Eurico Leite. Meu esposo ficou assustado e atento, aguardou nova comunicação que não tardou. (Era um grande amigo e compadre, residente em Salvador que estava providenciando entrar em contato com a família). Foi um tremendo choque para todos! Nessa mesma noite, conseguiram transporte, mas quando elas chegaram em Salvador, foi para assistirem ao sepultamento (Sr. Eurico foi vítima de um acidente). Ibirataia ficou consternada! De volta, a viúva triste, mas resignada, assumiu as atividades do Cartório Distrital, onde o falecido era escrivão. As meninas voltaram para o colégio e a vida continuou…

Nas férias, Cybele participava de um grupinho de adolescentes que aprendiam a bordar comigo (caprichosa ao extremo!). Cyva, sempre fazendo-me  companhia. Nesta época já participavam de um programa criado e dirigido pelo prof. Adroaldo Ribeiro Costa, transmitido pela Rádio Sociedade da Bahia, aos domingos, o qual, em Ibirataia, eu ouvia assiduamente. Cinara e Cilene já estavam estudando em Salvador e já participavam também da Hora da Criança.

Cyva quando concluiu o curso universitário (Letras Vernáculas), começou a lecionar. D. Iazinha, em Ibirataia continuava dirigindo o cartório e a nossa amizade crescendo e criando raízes profundas.

Prêmio recebido por Cyva – o livro “Os doze trabalhos de Hércules”, de Monteiro Lobato.

Fatos que a gente não esquece: Num Natal, Sr. Eurico ofereceu a Cyva uma boneca que andava. Ela, muito contente, resolveu batizá-la, sendo os padrinhos da boneca Lúria: eu e Teles. O evento foi comemorado com uma farta e saborosa merenda. Muitos anos se passaram… Quando Cyva resolveu morar no Rio de Janeiro e batalhar oportunidades artísticas de trabalho, foi em Ibirataia participar a D. Iazinha. Indo visitar-me disse: “Vou deixar com a senhora minhas riquezas: o prêmio que recebi das mãos do autor Monteiro Lobato: Os Doze trabalhos de Hércules e sua afilhada Lúria. Quando minha vida estiver organizada voltarei para buscar a boneca.” Recebi Lúria com carinho, coloquei-a numa caixa e guardei-a.

Cyva foi para o Rio, com o tempo foi atingindo suas metas. Logo após, aconteceu a ida de Cybele e juntas continuaram batalhando até chegarem ao ideal sonhado. Não foi fácil! Cinara e Cilene participavam de programas de televisão em Salvador e logo juntaram-se às irmãs. Assim nasceu o Quarteto. Vitória!!! O restante já consta no blog.

Mudamos para Salvador. Na bagagem veio a caixa com Lúria, em perfeito estado. Levamos uma temporada sem trocarmos correspondências com o Quarteto (motivos: viagens, mudanças de endereços, etc…). Cibele esteve aqui em Salvador, conseguiu localizar-nos e foi nos visitar. Que alegria!  Mas foi neste encontro que ficamos sabendo do falecimento de D. Iazinha. Chorei! Gostávamos imensamente dela.

Fato inusitado: Certo dia, recebo uma carta de Cyva dizendo que brevemente estaria aqui em Salvador (não a trabalho) e aproveitaria para levar Lúria. Fui imediatamente ao armário (ficava perto do incinerador de lixo, do prédio que morávamos) onde se achava a caixa com Lúria. Senti uma zuadinha diferente! E ao abri-la levei o maior susto!… Saltavam baratas por todos os lados (abafa!). A boneca era feita com uma massa e foi descoberta pelos insetos. Só restava a cabeça sem cabelo. O corpo era oco e justamente lá estava instalado o ninho. Braços e pernas separados do corpo. Uma catástrofe! Não havia condições de aproveitá-la. Tive que desfazer-me de Lúria e não comuniquei a Cyva (Lúria permaneceu conosco por mais de 15 anos). Estávamos decepcionados! De repente, chega o Quarteto com o MPB4 para fazerem um show, no TCA. No final, fomos ao camarim parabenizá-los pelo espetáculo e lá contei a Cyva o que havia acontecendo com Lúria. Ela abraçou-me e disse: “D. Dylce, até as pessoas se acabam… avalie uma boneca!” (ufa! Que alívio!)

Cyva e suas famosas tranças. Com Joilce (2 meses) e Jussara. Década de 1950.

Outro fato que não saiu da minha memória: Cyva, na adolescência, usava cabelo comprido, diariamente trançado e em momentos especiais solto, lindo e admirado por todos. Quando ela chegou de férias, foi logo dizendo-me: “Vou cortar este cabelo. Está muito pesado. Quero mudar de visual!” Certificada do que ela queria realmente fui ousada, nunca fui cabelereira e cortei o seu cabelo, na altura dos ombros. Quando ela viu o seu visual diferente, olhou-me e disse: “Eu falava de brincadeira e a senhora acreditou!!!!!”

Conservamos com o maior carinho todo noticiário referente ao Quarteto em Cy, todos os discos e o 1º filme gravado por Sr. Eurico. Temos por elas imenso carinho e estima não porque tornaram-se famosas e internacionalmente conhecidas, mas por fazerem parte da nossa vida.

Dylce Teles – 83 anos. SSA. Agosto/ 2011

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