Relato de viagem: “Minha melhor viagem”, por Cynara Faria

Cynara nos convida a viajar com ela pelas recordações de seus melhores momentos pelo mundo. Ela escolheu a sua “melhor viagem” para embarcarmos com ela e dividi-la conosco. Então apertem os cintos e vamos lá!

 

“Minha melhor viagem”

Cynara em Havana, Cuba.

O meu relato de viagem passa por lembranças inesquecíveis que guardo com muito carinho, e que não são poucas.

Ao longo desses 47 anos de carreira na música, integrando o Quarteto em Cy, andei, e ainda ando por aí afora, com olhos, ouvidos, (e garganta, claro) bem afiados pra captar o que o mundo me oferece.

E como é grande esse mundo…

Nas minhas andanças, musicais ou em férias, viajei à Europa várias vezes (Itália, Espanha, França, Portugal), aos Estados Unidos outras tantas, (chegando até a morar por quatro meses em Los Angeles, em 1967), ao Japão por três vezes (89, 97 e 98), aos países da América do Sul pelo menos umas quatro vezes (com e sem o Vinicius), e até por “la bela Isla de Cuba” (experiência única, nesse caso), sem contar as inúmeras viagens pelo interior do nosso País: do Sul Maravilha ao Norte e Nordeste que amo, passando pelo Centro-Oeste, Planalto Central e pelo Sudeste do Brasil. Posso quase dizer que já fui do Oiapoque ao Chuí…

Em João Pessoa. Com Quarteto, músicos e a neta Alice.

E como é grande esse Brasil…

Bem, eu teria tanta coisa pra falar de todos esses lugares, mas acho impossível num relato sucinto, lembrar-me com detalhes de todos eles. Vivi momentos lindos e prazerosos, uns mais que outros, mas cada qual teve a sua importância.

Quando estou em viagem de trabalho, ou seja, cantando, curto mais os lugares por onde passo, do que quando viajo simplesmente como turista ou por puro prazer. Isto porque, ao cantar em espaços reservados a nós, conhecemos não somente as peculiaridades de cada cidade (mesmo que de passagem), mas também, as pessoas que nela habitam e que se deslocam, generosamente, para nos assistir.

O que me dá prazer nessas viagens, além de fotografar os seus cartões postais que guardo com carinho, é estar com gente que fala de todos os assuntos. Minha curiosidade fica aguçada ao reparar nas pessoas que vão nos ver em teatros, casas noturnas, praças públicas ou ginásios. Elas saem das suas casas às vezes até sob forte chuva, para nos prestigiar, como aconteceu há tempos atrás no Pelourinho, em Salvador. E lá se vão ouvir o Chico, o Tom, o Vinicius, o Caymmi, e tantos outros autores que nos acompanham nessa jornada musical, mundo afora.

No metrô, em Tóquio, com Carlos Lyra, em 1989.

Esta, com certeza, é a minha melhor viagem: poder sentir e conhecer cidades e  pessoas que se revelam ao meu olhar diferenciado. Gente que me instiga quando tento sentir e decifrar o porquê de tanto carinho.

Em Sevilha, Espanha, em 1992.

Essa troca é o que me inspira, pelo menos a mim, que estou sempre “arrumando malas” para embarcar na jornada única do autoconhecimento e de situações inéditas que a vida me oferece. Gosto de viver coisas novas e de ter sensações inusitadas, isto me faz viva.

E é incrível como esta sensação é um viés de mão dupla. Agora mesmo, na cidade de Vinhedo, interior paulista, dia 23 de julho passado, quando terminamos a nossa apresentação do show Mundo Melhor, grande parte do público foi, como sempre, até o nosso camarim. É lá que as pessoas adquirem os nossos DVDs e CDs e levam consigo os nossos autógrafos. Às vezes pedem pra tirarmos fotos juntos, o que fazemos com grande prazer e disposição e, ali, batemos papos os mais variados. Mas, especialmente nessa noite, na saída pro hotel, um casal me parou pra comentar: o show de vocês é uma verdadeira viagem. Nós viajamos, literalmente, nas músicas que vocês cantam. Elas nos emocionam demais e nos transportam.”

En Punta del Este, com Milton Nascimento e MPB4.

Ali, naquele instante, eu percebi que a melhor de todas as viagens é a que fazemos para dentro de nós, porém com a cumplicidade do outro. É a viagem do encanto, da troca, do contato que acrescenta, e que, às vezes, é o início de uma nova e perene amizade. Enfim, é o tipo de “viagem” que caracteriza a índole do nosso povo, sempre afeito a criar laços.

E, parafraseando o pai do Chico, o escritor Sergio Buarque de Holanda, (apenas no sentido social da frase) “o brasileiro é um homem cordial”.

Boa viagem a todos!

Cynara

Rio, 31 de julho de 2011.

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