Causos: anedotas de 47 anos de estrada

Imaginem quantas histórias o Quarteto em Cy tem para contar depois de 47 anos de carreira… Histórias emocionantes, curiosas, interessantes, engraçadas. Cyva e Cynara contam, com muito bom humor, situações que viveram e se tornaram causos em Cy.

 

 

“O dia em que me transformei em Cinderela”, por Cyva.

 

Foram inúmeras nossas viagens, nesses 47 anos de carreira, para fazer shows no Brasil e no Exterior. Algumas dessas deixaram lembranças engraçadas. Como a primeira que fomos a Campinas, logo no início do nosso trabalho.

Fomos convidadas para uma apresentação num clube da cidade e o apresentador, não nos conhecendo bem, resolveu anunciar os nomes das quatro irmãs, com toda a pompa. Com voz impostada, de locutor, ele disse:

“- Pela primeira vez em Campinas, o quarteto de irmãs que veio da Bahia: CYBELE, CYLENE, CYNARA e… CYNDERELA!”

Depois desse show, já tive muitos outros nomes: CYRA, CYLA, CYNIRA e até hoje inventam outros. Parece que CYVA é o mais difícil de todos…

 

 

“Um causo inusitado: o tarado de Lins”, por Cynara.

 

Este fato aconteceu quando o Quarteto em Cy viajava pelo interior de São Paulo, ano de 1973, se não me engano, com Vinicius, Toquinho e banda. Era o popular Circuito Universitário que fizemos na época, com muito sucesso de público. As apresentações aconteciam em teatros, ginásios, anfiteatros e até em salas improvisadas, promovidas pelos Centros Acadêmicos Estudantis de cada cidade, em parceria com nosso empresário. Tínhamos um público jovem e completamente engajado, já que vivíamos uma época conflitante no nosso País, plena ditadura. Viajando por grande parte do Estado de São Paulo, fomos a mais de vinte cidades e, assim, passamos a conhecer quase todo o interior paulista. E foi bom demais. Eu, por exemplo, adoro viajar por terra (não sou amiga de aviões), pois vou curtindo paisagens de mato, rios, casas de gente humilde e grandes fazendas com alqueires e mais alqueires de plantações. As paisagens passam e são sempre renovadas, tudo muito bonito e prazeroso. É uma maneira de voltar aos velhos tempos em que viajava de ônibus para curtir as férias, quando findava o período escolar, de Salvador para Ibirataia, onde morava minha família.

Mas, voltando ao “causo” e ao Circuito com Vinicius e Toquinho, numa daquelas cidades, especificamente em Lins, toda a equipe foi instalada numa fazenda de um daqueles fazendeiros paulistas. Nós nos hospedávamos geralmente em hotéis, em pousadas e até mesmo nessas fazendas, como naquela de Lins. Numa das nossas folgas, para não termos que voltar aos locais de origem, ficamos hospedadas na casa de um amigo do Vinicius e do Toquinho, em Avaré. Era um lugar lindo, com um lago margeando a casa rústica e aconchegante. Essas hospedagens dependiam da produção local e dos contatos empresariais com os diretórios. O meio de transporte que usávamos era uma rural Willys azul claro. Vinicius ia na frente, junto ao chofer, e, nos bancos de trás, íamos nós quatro com os dois músicos, Azeitona (baixista) e Mutinho (baterista).  Toquinho ia no seu SP2 amarelo e, algumas vezes, cheguei a viajar com ele para diminuir um pouco o peso na Rural. O papo corria sempre delicioso e divertido, em qualquer situação. Vinicius era super bem-humorado e piadista. Estava sempre inventando uma maneira de se divertir, nos divertindo.

Nessa fazenda, no interior de Lins, o Quarteto em Cy se acomodou logo ao chegar, em dois dos quartos bem arrumados que nos aguardavam. Nós nos dividimos assim: Cyva e Soninha num deles, e eu e a Dorinha (Dorinha Tapajós, na época, nossa quarta voz), num outro aposento. Mas, já era tarde, e bateu aquele cansaço de mais um dia de estrada. Precisávamos urgente de uma boa cama, para nos refazermos, pois, no dia seguinte, seria a nossa apresentação na cidade. A fazenda era muito bonita e ficava numa região de mata exuberante.

Naquela noite, esticadas em nossas camas, eu e a Dorinha, já quase pegando no sono, ouvimos alguém bater, com força, à nossa porta. Era ele, “o tarado de Lins”, assim nomeado por nós, após o ocorrido, claro. Ele batia, quase forçando a entrada, e gritava: “me dá uma coxinha, aí”. Nós duas entendíamos “me dá uma colchinha”, como se ele pedisse um cobertor ou coisa parecida, pois fazia frio, na época. E nos olhávamos indecisas com o que fazer: se abrir a porta para saber do que se tratava, ou nos encolhermos ainda mais. Mas não ia adiantar muito, pois, o que ele gritava mesmo era “me dá uma coxinha, aí”, e, a coxinha que ele buscava, certamente a gente não tinha pra dar. O cara começou a empurrar a porta pra valer, até que eu e a Dorinha gadunhamos um cinzeiro que estava sobre a mesinha de cabeceira, já prontas pra revidar qualquer ataque, e gritamos bem alto. Logo foram chegando Toquinho e outras pessoas da casa que não entenderam nada do que se passava.

Final da história: Toquinho se dispôs a nos proteger, e, como um leão de chácara, se refestelou num colchonete, ali mesmo no corredor e, assim, conseguimos dormir em paz.

No café da manhã seguinte, posto numa grande mesa, na copa, contamos o evento pro Vinicius e, às gargalhadas, chegamos à conclusão de que foi mais um dos mistérios que rolaram naquele Circuito. Um “causo” que só fez enriquecer nossas experiências de viagens: as maravilhosas e memoráveis viagens do Circuito Universitário que fizemos na companhia de Vinicius e Toquinho, em terras paulistas, nos anos 1970.

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