“O novo Francisco”, por Cynara Faria

“Já gozei de boa vida, tinha até meu bangalô

Cobertor, comida, roupa lavada

Vida veio e me levou”.

(Trecho de “O velho Francisco” – música de 1987)

 

Cynara e Chico Buarque

Assim começa o espetáculo que o Chico está fazendo e percorrendo cidades, a partir do seu cd do mesmo nome e que me deixou completamente mexida e paralisada, no bom sentido.

Ontem, dia 12, uma quinta-feira, fui ver o Chico no Vivo Rio, acompanhada de meus familiares (João, Irene, Chico, Fernanda, Pretinho, Alice e Ruy).

Há mais de cinco anos, Chico estreou seu penúltimo show, “Carioca”, no dia do meu aniversário (07/01) e o Vinicius França, seu empresário, me presenteou com convites para vê-lo. Fui com essa mesma galera e o show foi maravilhoso, ficamos na beirada do palco, praticamente, curtindo tudo como se estivéssemos ao lado dele e da banda.

Mas, dessa vez, nesse dia 12, foi um pouco diferente: Vinicius novamente me deu convites de presente de aniversário, porém, para um camarote super bacana onde nos instalamos e nos deleitamos à vera.

Chico não precisa de nenhum tipo de elogio meu nem de ninguém para esse novo show. Mas, claro, eu não posso deixar passar um momento de extrema emoção que vivi ontem, sem falar um pouco disso. Logo no início, nos primeiros acordes de “O velho Francisco”, essa música que fez parte do disco de 1987, mas que também inspirou o Chico a escrever seu livro recente, “Leite Derramado”, comecei a minha saga de emoção à flor da pele. Não resisti e chorei à beça, ao me transportar pro meu mundo dos anos 70.

Durante o show, eu olhava o semblante dele com uma dor de saudade, mas foi um verdadeiro resgate de tempos muito bem vividos, quando convivemos bastante. Ele morava na cobertura da Lagoa (ainda era casado com a Marieta) e, ali, sempre nos reuníamos pra falar de tudo um pouco e também pra que ele mostrasse suas mais recentes músicas e letras. A década era a de 70, efervescente na cultura brasileira. Nos finais de noite sempre rolava o famoso carbonara, massa deliciosa que ele fazia e que, às vezes, vinha carregada na pimenta, o que nos fazia rir e debochar de seus dotes culinários. Depois desta fase, estivemos muitas vezes juntos, em participações dele nos nossos CDs, em depoimentos, etc. Volta e meia vou até o seu campo de futebol, o Politheama, onde, às segundas e quintas, rola uma pelada organizada. Meus filhos frequentam e mantêm esse contato delicioso.

Voltando ao show, fantástico! Incrível como ele está cantando bem, e, o que é melhor, não se importando nem um pouquinho em fazer concessões. O roteiro é recheado de inéditas e outras quase, e digo, até desconhecidas do grande público, que reagiu a todas com aplausos e gritos, e tudo aquilo que o Chico inspira: o verdadeiro amor.

Chico é uma figura comovente. A honestidade com que ele lida com os seus valores é incrível. Nunca precisou fazer cabeça de ninguém, nunca fez o menor esforço pra ser amado por todos, mas o é, e como! Tem lá suas idiossincrasias como todos nós, e, muitas vezes, é mal entendido e cobrado, o que é natural, por ser um ídolo. Mas ele não se importa e as suas convicções são inabaláveis. É um ser digno de muito respeito.

Sinto-me, ainda, neste exato momento em que escrevo completamente mexida com tudo que vi e ouvi ontem. Os arranjos do Luiz Claudio são quase um prolongamento das canções do Chico, tamanha é a identidade musical entre os dois. Também, já faz quase trinta anos que trabalham juntos, em shows e discos gravados. A banda, como um todo, é maravilhosa, destacando Bia Paes Leme, tecladista que faz uma segunda voz linda pro Chico.

Na verdade, ontem eu fui a um concerto inesquecível. E vai ser difícil a minha recuperação, em termos de voltar a ser a mesma de antes. É um espetáculo divisor de águas. As músicas do cd novo estão todas lá, em companhia das mais antigas, formando um lindo painel da sua história musical. Não destaco nenhuma, mas, se tiver de falar de alguma em especial, falo da última, “Sinhá”, uma obra-prima do cd Chico, feita em parceria com João Bosco. É como termina o show.

A gente sai de uma apresentação dessas com uma sensação de que o Brasil pode dar certo, um dia. Nossa cultura é o traço de união de nosso povo com a sua identidade. Precisamos mesmo de mais possibilidades de nos manifestar de todas as formas, por um País mais diverso.

 

Set list do show do Chico

 

1 – O velho Francisco

2 – De volta ao samba

3 – Desalento

4 – Injuriado

5 – Querido diário

6 – Rubato

7 – Choro Bandido

8 – Essa pequena

9 – Tipo um baião

10- Se eu soubesse

11- Sem você 2

12- Bastidores

13- Todo o sentimento

14- O meu amor

15- Terezinha

16- Ana de Amsterdam

17- Anos dourados

18- Sob medida

19- Nina

20- Valsa brasileira

21- Geni e o Zepelim

22- Sou eu

23- Tereza da praia

24- A violeira

25- Baioque

26- Cálice

27- Sinhá

Bis – Futuros amantes

Na carreira

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