Lançamento inédito de álbuns!

O mês de fevereiro trouxe uma super surpresa: dois discos do Quarteto em Cy, ou melhor das The Girls from Bahia (como eram conhecidas nos EUA), “Pardon my English” e “Revolución con Brasilia!”, acabaram de ser lançados pelo selo Discobertas. Júlio Maria, do jornal O Estado de São Paulo, publicou hoje uma matéria com todos os detalhes sobre esses discos, presentes que o público ganhou nesse início de 2012.

 

“The Girls from Bahia”

 

Discos “Pardon my English”, 1967 e “Revolución con Brasilia!”, 1968.

 

Vinicius de Moraes sentiu logo que a cuíca ia roncar. Ali, ao seu lado, quatro morenas que chegavam da Bahia cantando como sabiás, voz sobre voz, sem floreios, com mais bossa e menos jazz, mais graça e menos volume, eram, além de tudo, umas formosuras. “Olha lá Caymmi, duas pra mim e duas pra você.” Era o Vinicius de sempre, apadrinhando ao seu jeito as meninas Cyva, Cybele, Cylene e Cynara, irmãs que já vinham fazendo barulho no Beco das Garrafas, no Rio, e não podiam ter outro nome, Quarteto em Cy. O show que fariam por três meses na boate Zum Zum, em Ipanema, com Caymmi e Vinicius, seria fundamental para a carreira de um dos grupos vocais de maior relevância naquela segunda metade dos anos 1960. Logo depois que cantavam, Vinicius com Caymmi conversavam amenidades em um momento do show chamado A Hora do Papo. Escritores, embaixadores, diplomatas, a plateia transbordava em risos. Os áudios desses shows estão conservados em dois CDs guardados até hoje por Cynara.

A reação dos gringos naquelas noites de Zum Zum foi inspiradora para uma incursão pelos Estados Unidos pensada pelo produtor Aloysio de Oliveira. Uma aventura que renderia dois discos americanos lançados só agora no Brasil pelo selo Discobertas, com produção executiva de Marcelo Fróes: Pardon My English, de 1967, e Revolución con Brasília, de 1968. Remasterizados, são álbuns históricos com belos sets que trazem o grupo em seu auge, apesar de todo o circo armado por uma terra que ainda tentava entender o que é que aquelas baianas tinham.

Sabia-se que tinham tudo para vencer no país de Frank Sinatra que Aloysio de Oliveira conhecia tão bem. Decisão número 1: nos Estados Unidos, nada de Quarteto em Cy. O nome das irmãs seria The Girls From Bahia. O primeiro LP para o mundo ver foi gravado no Rio de Janeiro como Pardon My English, com produção de Aloysio e Ray Gilbert. Um texto em sua contracapa chama as meninas de “os Beatles de saias”. O repertório tinha versões em inglês para Samba Torto, de Jobim (Pardon My English); Você, de Menescal e Bôscoli; Canto de Ossanha, de Baden e Vinicius. Era a fina flor de uma terra exótica que o mundo havia descoberto havia pouco. Na contramão, vinham versões em português do quarteto para standards americanos como Makin’ Whoope e Oh Susannah.

A boa repercussão levou as irmãs a viverem nos EUA por seis meses, de janeiro a julho de 1967. Fizeram por lá uma série de apresentações no programa Andy Williams Show – Coast to Coast. A nova incursão rendeu o segundo LP americano de nome The Girls From Bahia – Revolución con Brasília!. Um título tão bizarro quanto as perguntas que as meninas ouviam dos americanos. “Eles achavam que a Bahia ficava na Argentina”, diz Cynara. O por que do nome em espanhol? Nem elas sabiam. “Os americanos achavam que no Brasil falávamos espanhol”, diz a cantora. Micos assim eram compensados no repertório; com arranjos das quatro enxutos, sem intervalos escabrosos. As vozes funcionavam como se fossem um quarteto de cordas, dois violinos, uma viola e um violoncelo. Sem grandes saltos, sem tensões. A estratégia mudava um pouco no segundo disco. De cá pra lá, Berimbau, de Baden e Vinicius, e Tem Mais Samba, de Chico Buarque, eram cantadas em português mesmo. Já Dindi, de Tom e Aloysio, ganhava versão em inglês. De lá para cá, In The Mood, em versão em português de Aloysio, virava a instigante Edmundo, um hino depois incorporado nos anos 70 pelos amantes do samba rock. Tudo feito com as vozes aproximadas, seguindo a um ideal de colocar a melodia nas pontas para que ela estivesse sempre em primeiro plano. “Jobim dizia assim: ‘Quero ouvir a melodia!’. A gente usava o vocal a favor da música”, diz Cynara.

Ao voltar ao Brasil, o grupo passou por mudanças. Cynara e Cybele souberam que a ideia era voltarem em breve aos EUA, e se rebelaram. Saíram do grupo para firmarem uma carreira no Brasil como dupla. Cantaram Carolina no Festival Internacional da Canção de 1967, na Globo, e tiraram o terceiro lugar. No ano seguinte, com Sabiá, levariam o primeiro. Fizeram circuito universitário com Vinicius e Toquinho e acabaram retornando ao grupo em 1972. Cynara fala por si ao lembrar daqueles anos de Hollywood Boulevard, onde viveram seus dias de american way of bossa. “Eu nunca quis essa carreira internacional. Queria era ficar sempre no meu País.”

 

Por Julio Maria, publicado em 18/02/2012, no Jornal O Estado de São Paulo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s