Memórias e Narrativas 10: “Sempre que o tempo quiser”, por Átila Almada

Átila Almada é o nosso convidado para integrar o décimo post da série “Memórias e Narrativas”. Cheio de bom humor e muita emoção, o texto de Átila revela o tanto de carinho que ele tem pelas meninas do Cy. Se eu fosse você, não perderia por nada essa leitura!

 

“Sempre que o tempo quiser”

 

Eu tinha mais ou menos dez anos. Ganhei da minha tia um CD de capa azul, com músicas de Toquinho e Elifas Andreato, Canção dos Direitos da Criança. A faixa 4, “De umbigo a umbiguinho”, era interpretada por um tal de Quarteto em Cy. Achei estranha a grafia com “cy” – pensei tratar-se da nota musical a princípio -, mas vá lá, gostei do que ouvi. Já estava acostumado ao som de Elis, Clara, Rita… e senti-me atraído pela harmonia das vozes. Naquele momento, contudo, não fui muito mais longe. Afinal, ainda preferia receber brinquedos e ir ao teatro; escutava os discos da família.

Algum tempo depois, quando estava na 7ª ou 8ª série, comecei pra valer minha coleção de CDs. E um dos primeiros que escolhi, quando minha finada avó me presenteou com certa quantia em dinheiro, foi o do quarteto. Era uma coletânea com gravações dos anos 60 e 70, da qual me chamaram a atenção “Mulheres de Atenas”, pela poesia, e “Água de beber”, pelo magistral arranjo vocal (vim a saber depois) de Luiz Eça e acompanhamento do Tamba Trio. Comecei então, como bom adolescente curioso, a fuçar na internet e nos livros que pegava emprestados  da biblioteca onde minha mãe trabalhava, com o intuito de saber mais sobre as quatro mulheres que cantavam. Descobri o porquê do nome, as diversas formações, a sequência discográfica… dados que só fizeram aumentar meu respeito pelo grupo. Lembro-me do dia em que saí pelo cento de São Paulo, a caçar nos sebos o álbum Tempo e Artista, até hoje o meu favorito. Tinha-o ouvido pelas mãos de uma amiga da família e fiquei fascinado. Claro que nenhum dos atendentes das lojas deu muita bola para um garoto de catorze anos que queria escutar, como um deles disse, “música de velho”. Engraçado isso, as pessoas acharem que música, sobretudo música boa, tem idade.

Em março de 2002, surgiu a primeira oportunidade de vê-las ao vivo, apresentação do show Verdades e Mentiras no Sesc Pompeia. Quando a locutora do teatro anunciou “E agora, o Sesc tem o prazer de apresentar… QUARTETO EM CY!”, meu coração veio à boca, assim como as lágrimas aos olhos, nos primeiros acordes da vinheta de “O circo”. Na saída, ainda em êxtase, comprei o CD Hora da Criança e fui para casa, com o espetáculo a passar feito um filme em minha mente. Por essa época, já brincava de fazer poesia. Em agosto, escrevi “Ao Quarteto em Cy”, um singelo – mas verdadeiro – tributo. Guardei-o na gaveta. Algumas pessoas falavam para eu enviar, porém aquilo, ponderava, seria um atrevimento: Artistas tão renomadas não dariam ouvidos a um moleque; no mínimo, transformariam minha carta em combustível para acender churrasqueira.

Ainda com tal convicção, porém imbuído da ideia de que não tinha nada a perder, somada a uma boa dose de cara-de-pau, mandei para a CID – então gravadora das meninas – o poema e mais dois textos, em janeiro de 2003. “Elas não vão ler mesmo, vai virar arquivo morto”, sentenciei. Deixei pra lá e fui tocar meus desesperos, já às voltas com os vestibulares que prestaria ao fim daquele ano. Pois bem, passaram-se dois meses. Eis que na noite do dia 19 de março, uma quarta-feira que prometia terminar como começou, incrivelmente tediosa, o telefone tocou.

“Alô, por favor, o Átila”. “Quem é?”. “É a Cyva”. Fiquei branco, do sofá minha mãe achou que o filho de 16 anos ia ter um troço. “É a Cyva, mãe, do Quarteto em Cy!”. Não preciso nem dizer que praticamente não dormi, ainda com a ideia de que tudo aquilo havia sido uma grande mentira, talvez um sonho ou mesmo o início de um quadro de loucura. Antes, porém, de procurar o endereço de algum psiquiatra ou de começar a babar, recebi a primeira carta. E, na sequência, correspondências de uma a uma dessas pessoas maravilhosas. Era verdade mesmo…

Hoje, quase uma década depois, esgotaria meus adjetivos para falar sobre elas. E mesmo que assim o fizesse, ainda faltariam palavras. Só posso dizer que me sinto profundamente honrado de acompanhar – ainda que, pela minha vida de professor, nem sempre tão de perto – o trabalho das quatro bailarinas da voz, patrimônio imensurável da Música Popular Brasileira. Quarteto querido, aprendi com vocês muito além de acordes. Aprendi a ser mais humano. E levarei no fundo do meu peito aquele amor que “vai sempre resistir, cantado em dó, ré, mi, fá, sol, lá, si”.

Mil beijos,

ÁTILA ALMADA

Docente em Língua Portuguesa

Conferencista, pesquisador e poeta

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Um comentário sobre “Memórias e Narrativas 10: “Sempre que o tempo quiser”, por Átila Almada

  1. Chega de saudades……Queridas CYNARA CIBELE CIVA….. eternas lembranças de vocês estudando no INB , A carta que você escreveu se despedindo do colegio CENTRAL da BAHIA. Os dias na casa de EUNICIA na rua BRIGADEIRO PESSOA DA SILVA, a sua apresentação na ESCADA PARA O SUCESSO. nunca deixamos de ser seus fans.WALDEMARZINHO JOSE EDMUNDO grande músico e compositor.Onde faz grandes apresentações em SALVADOR ver no facebook de WALDEMAR o facebok de ZEZINHO e a apresentação dele .e o CD.do mesmo.desde crianças eles acompanharam seus sucessos Só tocava MPB.até hoje ZEZINHO canta e toca e relembra de vocês para o público daqui de SALVADOR–ALICE E FRANKLIN tambem. a musica que me traz lembranças ?TODAS mas a principal é a BANDA e CHEGA DE SAUDADES…..e SAUDOSA MALOCA. m e lembra muito do seu primo JOSÉ EDMUNDO.meu marido. QUE SAUDADE daquele tempo tão bom e cheio de poesias.Me lembro de vocês cantando para minha avó ALICE na sala da casa n.15 na lapinha E quando vocês cantara m uma musica de ninar para WALDEMARZINHO na casa de mãezinha EUNICIA sua tia. lembro de voc~e CYNARA dançando com FERNANDO o puladinho.De CIBELLE quando trabalhava no BANCO e almoçavamos na casa de sua tia EUNICIA minha sogra , CHEGA DE SAUDADES…………Vai minha tristeza e diga a ela…………………CANTEM pra mim. saudade com grande nostalgia me faz chorar nesse momento de lembrançaaaaas. amo vocês queridas e saudosas em CY.

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