Sabiá e a histórica vaia – parte II

Segunda parte da matéria do Jornal do Brasil, de outubro de 1968 sobre o Festival Internacional da Canção daquele ano que imortalizou a histórica vaia a “Sabiá”.

 

 

Pra não dizer que não falei de vaias

Cynara e Cybele com Vandré no FIC 68

Mas dentro do aplauso moderado do público para as semifinalistas apresentadas nos dois primeiros espetáculos, destacou-se logo o entusiasmo provocado pela música de Geraldo Vandré, e desde o início já se previa uma vaia gigantesca caso a música não fosse a escolhida. O próprio júri sabia disso. A essa altura, porém, era apenas um aplauso mais intenso que da outra, mas sem vaias.

O primeiro sinal evidente de protesto começou quando a música Caminhante Noturno, de Os Mutantes, foi anunciada no sexto lugar. Grande parte do público torcia por esta música desde os espetáculos anteriores e esperava melhor classificação.

E a vaia mais intensa começou quando Geraldo Vandré, que era chamado sem parar pela plateia, foi anunciado no segundo lugar. Daí em diante não se ouvia mais a voz do locutor Hilton Gomes.

Andança, de Danilo Caymmi e Edmundo Souto, que já era esperada entre as vencedoras pelos compositores concorrentes, foi repetida já como terceira colocada, mas as vaias continuavam e as vozes de Beth Carvalho e dos Golden Boys ficaram perdidas.

Conservando a mesma intensidade e violência, as vaias transformaram-se em aplausos e gritos quando Vandré entrou para repetir Pra não dizer que falei de flores, e foi acompanhado em coro pelas 20 mil pessoas que lotavam o Maracanãzinho e acenavam com lenços brancos.

Pedindo bis e gritando o nome de Vandré, o público não deixou que Cinara e Cibele fossem ouvidas quando vieram cantar novamente Sabiá. Atacado por alguns que o classificavam como demagogo Vandré entrou novamente no palco acompanhando as duas cantoras, sentou-se num banco com o violão e foi um apelo ao público para que respeitassem a música de Tom e Chico.

 

Questão de moral

 

Quase tonto e transtornado pela consagração do público, pelo abraço dos colegas, Vandré tinha decidido pouco antes, nCynara e Cybele com Vandré no FICos bastidores, que “estou com o público”, referindo-se ao resultado e a reação da plateia.

Mas qualquer que fosse sua opinião sobre o resultado, a atitude de Vandré só poderia ser mesmo de apoio a Tom, Chico e a Cinara e Cibele por questão de coleguismo e também porque Vandré não deve ter esquecido a atitude tomada por Chico Buarque no II Festival da Record, em 1966. Foi o famoso festival em que venceram empatadas A Banda, de Chico e Disparada, de Vandré. Mas esse empate foi pedido por Chico Buarque, porque, de acordo com a votação do júri, a vencedora seria A Banda, por sete votos a três. Com a atitude tomada por Chico, o público que estava dividido entre as duas músicas saiu satisfeito com o resultado.

Agora entre a música de Chico e de Vandré, a diferença foi de apenas três pontos: Sabiá recebeu 109 votos, enquanto que Pra não dizer que não falei de flores recebeu 106. Mas o público não estava dividido e apoiava em bloco a composição de Vandré para o primeiro lugar, embora tivesse gostado de Sabiá. Se a ordem de classificação tivesse sido invertida, com certeza o público aplaudiria Tom em Chico em segundo lugar.

Em quantidade e intensidade, a vaia de domingo no Maracanãzinho superou todas as demais ocorridas em festivais anteriores. Mas apesar dos video-tapes das eliminatórias passadas do Festival, o público ainda não adotou os métodos violentos que estão caracterizando as manifestações do público paulista e que atingiram seu ponto máximo em relação a Caetano Veloso este ano, provocando em resposta um discurso violento do compositor, mas que no ano passado fizeram com que Sérgio Ricardo atirasse seu violão sobre a plateia.

 

 

Vamos rever a antológica cena de Cynara e Cybele cantando “Sabiá”, no Festival Internacional da Canção de 1968.

 

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Um comentário sobre “Sabiá e a histórica vaia – parte II

  1. A bossa nova sempre foi omissa com a ditadura militar Tom Jobim e João Gilberto nunca falaram um “a” sobre a repressão. no exterior quando faziam shows os dois ignoravam o exilio da Nara Leão principalmente o João Gilberto que sempre se omitiu numa época tão grave obviamente dependia dos fãs americanos que iam nos shows portanto se falasse qualquer coisa nos eua não voltava a fazer shows lá..E Sabiá não era música sobre exílio essa versão surgiu depois da Ditadura ter terminado para tentar justificar a letra Lírica todo mundo sabe que naquela época(1968) o CHICO BUARQUE não fazia ainda letras políticas as vaias foram um dos motivos para ele mudar sua postura e ser mais critico a Ditadura. A Bossa Nova sempre foi muito mais Jazz do que Samba Não é a toa que os americanos adoram esse estilo e copiam, copiam e copiam Porém o Samba eles não se atrevem Porque esse é genuinamente brasileiro.

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