“Este é mais um disco independente”, por Igor Garcia

Publicado pela editora Annablume, o livro de Igor Garcia “O Lado B: a produção fonográfica independente brasileira”, trata da atual situação do mercado fonográfico brasileiro que passa por um momento de incerteza e instabilidade. Esse cenário tem aberto possibilidades para os artistas independentes ganharem espaço entre o grande público, a mídia e o próprio mercado. O livro é um estudo que através de um panorama da produção fonográfica do Brasil chegando aos dias de hoje, procura perceber de que forma os avanços tecnológicos se relacionam com o meio musical e quais as transformações ocorridas por meio dessa relação. Igor nos conta um pouco a respeito do processo de escrita do livro que tem depoimentos de Cynara Faria, do Quarteto em Cy; Ruy Quaresma, do selo Fina Flor; Carlos Mills, do selo Mills Records, entre outros nomes representativos do cenário musical e cultural brasileiro.

 

 

“Este é Mais um Disco Independente”, por Igor Garcia

 

Capa do livro "O lado B: a produção fonográfica independente brasileira", de Igor Garcia.

Capa do livro “O lado B: a produção fonográfica independente brasileira”, de Igor Garcia.

Desde a primeira infância eu me via arrastando para onde ia minha vitrola e meu gravador. Àquela época, ouvia apenas o que a mídia de massa me trazia. Somente no início de minha adolescência, entretanto, foi que comecei a perceber a música como uma verdadeira necessidade. Daí que realmente começou a se formar meu gosto por esta arte, também motivado pelo estudo de violão, piano e teoria musical, o que muito ajudou a aguçar minha percepção.

Em meados dos anos 90 resolvi iniciar uma coleção de LPs, arrebanhando um sem fim de títulos de artistas tropicalistas e bossa-novistas. Foi a gleba. Um artista me trazendo outro; um estilo me apresentando a outro; uma vertente me mostrando outra. Isto me levou a perceber a música como uma teia, uma rede em que todos os estilos se mostram inter-relacionados. Se partirmos da Bossa Nova, por exemplo, podemos chegar até o Rock bastando cruzar a trama vizinha do Jazz e os fios contíguos do Blues.

Passeando por esta teia musical, sempre com muita avidez, percebi muitos discos nacionais das décadas de 70 e 80 desprovidos de marcas ou selos que indicassem uma gravadora conhecida. Isto me despertou grande curiosidade. O LP de estreia do grupo Boca Livre foi decisivo para eu querer me aprofundar neste universo. Em sua contracapa havia uma observação intrigante, como que um lema: “Este é mais um disco independente”.

Formei-me em Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda e me pós-graduei em Teorias e Práticas da Comunicação. A pesquisa “O Lado B – A Produção Fonográfica Independente Brasileira”, desenvolvida inicialmente como monografia apresentada à Fundação Cásper Líbero, foi levada a público através da editora Annablume, companhia renomada no segmento acadêmico. Seu lançamento ocorreu em dezembro de 2010 na Livraria Martins Fontes, em São Paulo. Através desta pesquisa, tive a oportunidade de adentrar aquele tema que tanto havia me intrigado.

Vim a saber que aquele LP de estreia do Boca Livre figurava como o maior êxito da produção fonográfica independente brasileira, tendo alcançado a marca de mais de cem mil cópias vendidas à época de seu lançamento, em 1979. A canção “Toada”, carro-chefe do disco, figurou entre as mais executadas nas rádios de todo o Brasil. Outras iniciativas no ramo da produção independente chegaram ao meu conhecimento, assim como variadas e contraditórias definições para o conceito de independência aplicado à música. Tais definições, assim como as empreitadas mais exitosas e/ou notórias no meio independente foram arroladas nesta pesquisa, que procurou situar este cenário específico – micro – dentro do panorama da fonografia brasileira – macro.

Uma das iniciativas independentes mais representativas que agora me vêm à cabeça foi aquela que teve o músico Antonio Adolfo, com seu selo Artezanal (sic). Nos anos 60, Adolfo havia vivido uma fase de grande sucesso em parceria com Tibério Gaspar, emplacando hits como “Sá Marina”, “BR-3” e “Teletema”. Em fins da década de 70, após ter se especializado no exterior, desenvolveu nova e peculiar sonoridade, bem distante daquela que o havia consagrado. Nada de refrões explosivos e pregnantes agora, mas melodias complexas e ricas harmonicamente. Aquele novo estilo de Antonio Adolfo o afastou das gravadoras, que buscavam se estabelecer à base de produções com maior apelo popular. Adolfo resolvera então gravar por conta própria um novo disco, distribuindo-o pessoalmente nas lojas do Rio de Janeiro. O LP “Feito em Casa” foi o primeiro de uma longa e bem-sucedida série produzida para seu selo próprio.

Pesquisando as produções embrionárias no ramo da fonografia independente, pude notar que tais realizações costumam ser marcadas pelo empreendedorismo, pela vontade de fazer diferente, pela ânsia de ser dono da própria obra ou ainda pela falta de reconhecimento por parte das companhias fonográficas. Curiosamente, muitos artistas que tiveram início independente exitoso acabaram despertando o interesse de grandes gravadoras. Isto aconteceu na década de 80 com Boca Livre, Céu da Boca, Eliete Negreiros, Leila Pinheiro; mais recentemente, a cena se repetiu com Mallu Magalhães, NXZero e Vanguart.

Cynara e Cyva, do Quarteto em Cy, no lançamento do livro de Igor garcia.

Cynara e Cyva, do Quarteto em Cy, ao lado de Igor Garcia, no lançamento do livro “O Lado B”.

Interessante notar a influência que teve o suporte nesta trajetória toda. Há cerca de 30 anos, quando as produções independentes começaram a se popularizar, o artista ainda arcava com altos custos para produzir um álbum de forma autônoma: os estúdios trabalhavam com o pouco prático e caro sistema analógico; a base era o LP, cujo fabrico envolve etapas artesanais – como a galvanoplastia, processo de geração de matrizes que envolve, entre outros materiais, a nobre prata. Uma vez prensados os discos, partia-se para a árdua etapa de distribuição e divulgação, ainda mais complicada numa época em que os eventos culturais e os veículos de comunicação eram em grande parte de massa. Era pouca ou nula a motivação de um lojista em comercializar o disco de um nome ou estilo desconhecido. Da mesma forma um programador de rádio ou televisão, sem receber o usual incentivo financeiro por parte da gravadora – o “jabá” – não teria este interesse.

Através das facilidades trazidas pelo sistema de gravação digital, percebemos também a democratização da técnica. Um simples computador, mesmo os adquiridos em lojas populares de varejo, está apto a fazer às vezes de estúdio, fábrica de suporte – agora virtual –, distribuidora e veículo de comunicação. Pode-se dizer, portanto, que nunca os independentes tiveram tanta independência.

 

Notas:

À época de seu lançamento, “O Lado B” rendeu crítica publicada pela Folha de S. Paulo, assim como citações em vários outros veículos. Muitas faculdades o adotaram em suas e bibliotecas.

“O Lado B” recebeu diversas citações em pesquisas acadêmicas de cursos de comunicação.

Alguns assuntos tratados em “O Lado B” continuaram a ter desdobramentos. O blog “O Lado Bom” foi criado para dar prosseguimento a esta pesquisa. Nele também se encontram links para lojas virtuais que a disponibilizam: oladobom.blogspot.com

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