“As Bahianinhas”: crônica de Vinicius de Moraes

Já que estamos comemorando seu centenário, recuperamos uma crônica do Vinicius publicada originalmente no Diário Carioca, em 2 de dezembro de 1964, em que o poeta conta como conheceu as meninas e como delas se tornou amigo e fã, com direito até de sentir ciúme das suas baianinhas quando começaram a ganhar o mundo. Hoje, então, a palavra é do Vina!

 

 

“As Bahianinhas”, por Vinicius de Moraes

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Dorival Caymmi, Cyva e Vinicius de Moraes.

 

Um dia, há uns quatro anos, meu amigo, o inteligente e musicalíssimo Carlos Coqueiro Costa – hoje em dia um dos baianos fundamentais ao conhecimento em profundidade da boa terra – entrou em minha casa trazendo uma moça com uma carinha linda meio Joana d’Arc.

– Esta é Cyva – disse-me ele. – Ela canta o fino e tem muita musicalidade. Vai morar no Rio e eu gostaria que você tomasse um pouco conta dela. Cyva voltou, depois. Conversamos muito e ela contou-me como, de brincadeira, em casa, tinha começado a cantar com suas três irmãs: Cynara, Cybele e Cylene. Um quarteto. Elas próprias arrumavam as vozes e se apresentavam em festinhas de casas amigas, numa base puramente amadora.

– Elas estão para chegar – falou-me Cyva um dia, com sua voz de anjo, materializada apenas por um ligeiro sotaque.

E uma noite ela me apareceu com o quarteto: (au grand complet) todas umas graças – finas, simpáticas, pródigas de encanto. Quando começaram a cantar, então, coisas de Caymmi e temas de sua Bahia natal, eu parti para o uísque. Declarei-lhes peremptoriamente:

– Vocês são minhas. Me pertencem. Preciso pôr vocês numa gaiola de que só eu tenha a chave. Digam sumariamente “não” a qualquer proposta que lhe fizerem para cantar.

Elas me ouviram, com ar grave, tão bem comportadinhas – mas sem serem chatas como as “Meninas exemplares” da Condessa de Ségus – e pareceram aprovar o meu ciúme. Em seguida, começamos a cantar juntos. Eu lhes ensinava nossa coisa (nessa ocasião em plena fase de composição com Baden) e elas trinaram que era uma beleza, com timbres de grande pureza e uma afinação perfeita. Começamos a ir a festas, elas sempre empoleiradas à minha volta, como lindos canarinhos. Catávamos sem parar, saudando as pessoas que chegavam com o nosso “Bom dia, amigo”. As mulheres elegantes, também encantadas com as meninas, olhavam para elas já bolando graciosas indumentárias para o seu lançamento. Uma noite convoquei Tom para ouvi-las. E Carlinhos Lyra. Tom aprovou, Carlinhos ficou louco.

– Precisamos “trabalhar” as menininhas!

E começou a orientá-las, a ensinar-lhe as coisas que sabia, a ajudá-las na arrumação das vozes, no sentido de uma maior unidade. Elas realmente pareciam anjos que houvessem pousado em nossas canções. Eu queria fazer um LP só nosso, com as Baianinhas.

Depois viajei. E aí sobrevieram “alguns aventureiros e lançaram mão delas”. Bons aventureiros, diga-se de passagem. Roubaram-me literalmente as menininhas. Nós lhes tínhamos arrumado um nome profissional: “Quarteto em Cy”, em virtude da primeira sílaba comum a seus prenomes. O nome ficou. Mas para mim elas serão sempre “As baianinhas”.

Já estrearam no Rio e em São Paulo, e todo mundo as adora: o que me deixa bastante enciumado. Mas que é que se vai fazer… Anteontem, numa bonita festa no Leme Palace, houve o lançamento de seu primeiro LP para a nova etiqueta “Forma”.

Que ele tenha o maior sucesso, é tudo o que – embora com muita dor de cotovelo – deseja este cronista.

 

 

Dica de leitura: A crônica “As Bahianinhas” foi publicada em 2008 em Vinicius de Moraes: Samba Falado (crônicas musicais), Miguel Jost, Sérgio Cohn e Simone Campos (Org.). Rio de Janeiro: Ed. Beco do Azougue, 2008.

 

Em verso e prosa: Já que Vinícius falou do “Bom dia, amigo” que ele e as baianinhas cantavam para recepcionar seus amigos, cá está ele para dar sempre as boas vindas aos nossos leitores. E vamos curtir juntos também do disco “Vinícius e Caymmi no Zum Zum – Com o Quarteto em Cy e o conjunto Oscar Castro Neves”, lançado em 1965 pela Elenco, o poema de Vinícius “Dia da Criação”, que faz parte do repertório do show do Quarteto em comemoração ao centenário de Vinícius.

 

 

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